Salão automovel de Genebra 2014 pelo Turbo-lento

Escrevo à beira-mar plantado, aproveitando uns dias de férias, e enquanto aproveito o ar salgado lembrei-me que não escrevi nada sobre a ultima edição do salão automóvel de Genebra que passou...e eu ainda não pude ir - a fazer antes de morrer, mas não conto morrer tão cedo. É o mais importante salão automóvel do ano e todas as grandes novidades do mundo automóvel estiveram lá.

Este ano curiosamente dominado por automóveis bastante terra-a-terra e não apenas hiper-carros, mas não é só sobre o automóvel que se faz o salão, é sobre o futuro e o estado do mercado. Mas uma coisa de cada vez... 

As novidades que vale a pena falar
O meu preferido é sem duvida o Citroen C4 Cactus.

Funcionalidade francesa, ideias simples e funcionais com a dose certa de loucura. 5 lugares, espaçoso, optimista, versátil para levar uma bicicleta ou uma canoa, e acessível. Sinceramente, adeus Dacia Duster. Simples mas brilhante. Ao fim de vários concepts a Citroen parece enfim ter acertado na "mouche". 

Renault Twingo é outro dos meus preferidos: motor e tracção atrás (o que promete grande capacidade de manobra na cidade e espaço interior), designe exterior de deixar água na boca e um interior muito divertido, atraente.

Muitos argumentam que parece uma cópia do Fiat 500 (creio que o herdeiro/playboy da família Agnelli é o mais vocal dessa critica) mas a forma inteligente como a Renault organizou o novo Twingo e só a ideia de que se pode ter um automóvel sensato de tração traseira (com todo o potencial de diversão atrás do volante que isso pode implicar) soa bom demais para ser verdade. Infelizmente já há sinais que os franceses tenham sido "franceses demais" no novo Twingo - vejam como complicaram o abastecimento do líquido do limpa-vidros. Espero que tenham sido mais sensatos no que diz respeito à condução.

Novo Toyota Aygo: gostei muito dos trigemeos Peugeot 108/Citroën C1/Toyota Aygo - pequenos, leves, cheios de detalhes inteligentes e acima de tudo nesta nova geração conseguiram diferencia-los. 

Creio que apenas as portas dianteiras, pilar A e o interior são exactamente iguais, o resto é diferente. Mas a escolher entre os 3 iria para o Toyota Aygo - é "mais diferente" que os outros dois, mais personalizavel - o que é que interessa que só está disponível com o menos potente 3 cilindros de 1 litro? Se fosse mais rápido não se poderia apreciar o louco designe. Olhem bem para ele, parece que nos quer dar uma cabeçada! Prova que a Toyota ainda consegue fazer algo controverso, criativo, imaginativo. 

De todos os concepts gostei mais deste "Volvo Concept Estate" - desde que a Volvo foi vendido aos chineses não via nada de verdadeiramente novo e inovador a sair da marca Sueca.

 e depois de 2 concepts sem sal ou grande consequencia, este Concept Estate (que anuncia o próximo XC90 que já conta com 12 anos de carreira) é simplesmente soberbo, moda encontra funcionalidade. 

Desportivos ainda mexem - e vêem quase todos da beira dos alpes - temos os italianos (Maserati Alfieri, Alfa Romeo 4C Spider, Ferrari California, Lamborghini Huracan, Abarth 695 Biposto) e alemães (Audi S1, Opel Astra Extreme, Audi TT, S3 Cabrio, Adam S, Porsche 919 Hybrid, restyle do Scirocco) a dar cartas. E a Volkswagen trás o desportivo do futuro com o Golf GTE - um híbrido plug-in acertado para as performances.

Sim, a Honda levou o Honda Civic Type R e os ingleses lá levaram o novo McLaren 650S e o Jaguar XFR-S Sportbrake, mas o importante numa era de caça às emissões e caça a todos que ousem sequer sonhar com um desportivo é bom ver que ainda estão entre nós para nos acelerar o pulso. Até os Espanhóis, que pelo meio dos sucedâneos, trazem o Leon Cupra que já detem o recorde do Ring para automóveis com tracção dianteira! Só os franceses é que ficaram completamente de fora neste tema... 

Avalanche SUV continua - com três letras apenas se escreve a palavra SUV, mas parecem ser mágicas para o mundo automóvel - sim, já houveram salões com mais SUV's mas este salão de Genebra mostra que o ritmo de novos modelos não vai parar tão cedo. O Nissan Juke teve enfim um refrescar visual, talvez discreto demais para se defender do novo (e quadradão) Jeep Renegade

A Volkswagen deu um tiro de aviso para 2016 com o concept T-Roc que pode vir para a Portugal. A Opel trouxe o Adam Rocks e a Fiat o Panda Cross. O X4 pode ter sido apresentado fora do salão mas o X3 recebe uma actualização. E apesar de todos só terem olhos na Citroen para o C4 Cactus, a marca francesa também levou o Citroën C5 CrossTourer a Genebra. A Range Rover pode não ter levado o novo Discovery mas levou o Evoque Autobiography e a Skoda levou o novo Skoda Octavia Scout. 

Desapontamentos
Neste salão também houveram alguns modelos e situações que deixam um sabor amargo na boca. Na categoria do "desnecessário" - o Opel Adam Rocks.
A Fiat teve um grande sucesso com o 500, 500 cabriolet e com o Panda 4x4 - e alguém na Opel lembrou-se "porque não fazer 3 em 1?" Um citadino premium descapotavel SUV - soa um pouco a PT Cruiser descapotavel com uma pitada de desespero. 

Outro desapontamento foi o novo Lamborghini Huracan - pode ser mais um exemplo das imagens não fazerem justiça ao carro, mas não parece suficientemente louco como todo e qualquer Lambo deve ser.
Os números soam a Lamborghini e até pode soar como um Lamborghini, mas será que parece um Lamborghini?

BMW Serie 2 Active Tourer- ok, é difícil ignorar o elefante no meio do stand da BMW: depois de anos a defender a tracção traseira como o único local certo para a ter, chegamos a 2014 com a Renault a apresentar um citadino de tracção traseira e a BMW a introduzir um monovolume de tração dianteira...estranho não?

É um sinal do quanto o publico evoluiu, deixando para trás certos preconceitos e, conforme escrevi recentemente, nova dor de cabeça para os construtores generalistas (leia-se Ford, Renault, Citroen, etc) que as ditas marcas Premium estão a descer no segmento e a roubar-lhes clientela. Claro que aqui também temos o risco das marcas Premium (BMW, Mercedes, Porsche, etc) descerem demais, diluírem o valor acrescentado que dêem e perdem a clientela disposta a pagar mais pelos modelos caros - afinal, para quê comprar um BMW se qualquer um pode ter um? A Mercedes tambem arrisca o mesmo com o Classe A e CLA.

Divida da FIAT sustentável? Pouco antes do Salão de Genebra, o CEO da Fiat Sergio Marchionnne conseguiu enfim adquirir a parte que faltava da Chrysler unindo assim Fiat e Chrysler ao som de 4,35 mil milhões de euros. Mas enquanto ouvimos o sonho de Marchionne de criar uma marca global capaz de desafiar Toyota, General Motors e Volkswagen, não posso deixar de pensar se a dívida acumulada é simplesmente sustentável: 10 mil milhões de euros de divida liquida actualmente, sem contar com os encargos de manter tamanha divida.

Em termos automóveis dava para financiar 4 novos automóveis num ano. Marchionne tem um plano(que ainda não partilhou), e sem adquirir estes últimos 41,5% que estavam nas mãos de sindicatos arriscava a ter os seus planos sabotados por esses mesmos sindicatos - ele preferiu sacrificar novos modelos a correr o risco de lhe puxarem o tapete. A Fiat tem navegado a crise cortando investimentos em novos modelos e apostando apenas em derivados do 500 e Panda, mas esta dívida não se vai embora e tem que ser "tratada" em breve. 
A questão é - o que vai Marchionne fazer? Muitos temem algo radical, incluindo uma saída da Fiat de Itália que empurrará a Itália de tremida, para os níveis de Grécia... 

Futurologia
A nível de tecnologias e visões do futuro creio que o Salão de Genebra 2014 teve algumas presenças que merecem serem citadas. Painel de instrumentos 100% digital do Audi TT - depois de anos a ver a overdose do tablier automóvel com botões e mais botões, parece que enfim alguém chegou à conclusão que era hora de dizer basta. 


Na nova geração do TT, o interior é limpo - ao invés de um grande ecrã a dominar o tablier, todas as informações são transferidas para um ecrã digital à frente do condutor. Este sistema deverá chegar rapidamente à restante gama Audi e grupo VW já que permite também uma enorme economia de escala: para que ter um (ou mais) combinado de instrumentos para cada modelo quando pode ter um ecrã digital para todos os modelos e variantes?

Nas novas tecnologias o mundo automóvel está repleto de falsas-partidas - esta pode bem ser mais um, mas a tecnologia não deixa de ser interessante: um novo tipo de bateria de fluxo (flow cell battery) da Quant. É uma bateria (que segundo a empresa oferece uma autonomia de 370 milhas) que pode ser abastecida como um automóvel comum: não é recarregada na tomada, quando esgotada basta atestar os 2 depósitos com electrólitos diferentes e continua-se a conduzir. Não é uma tecnologia nova, mas é a primeira vez que oiço ser aplicada a algo mais que uma empilhadora. Ainda está a anos de possível aplicação real, mas vale a pena ficar de olho.

Condução autónoma - continua a ser a grande coqueluche da industria automóvel. E é fácil de compreender porque: promete mais conforto, segurança (logo redução do custo de seguros), reduzir acidentes e engarrafamentos. Dá um novo fôlego ao futuro do automóvel. Infelizmente o maior obstáculo nem é a tecnologia, mas sim advogados que já esfregam as mãos com a possibilidade de poderem vir a processar construtores automóveis por acidentes que envolvam automóveis autónomos.


Incertezas
O primeiro grande salão automóvel de 2014 pode ter muito brilhante e sorridente, mas a verdade é que houveram muitas questões quentes no ar de Genebra.

Europa recupera? 
A acreditar nos últimos números, parece que as vendas automóveis enfim saíram da queda continua que tem sido os últimos 6 anos, mesmo sendo uma recuperação lenta e nervosa. A verdade é que a subida em 2014 será possivelmente de apenas 2% e apesar de sorrisos e palmadinhas nas costas, todos olham nervosamente para a China...

China Treme
Outro tema de conversa que andou na boca de muitos no Salão de Genebra é a desconfiança sobre o futuro do mercado chinês - muitos construtores europeus dependem do sucesso de vendas na China para gerar dinheiro (Volkswagen, Audi, Porsche, BMW, Mercedes) e a PSA atira-se de cabeça para este mercado como salvação, mas um recente estudo e documentário da BBC sugere que o crescimento económico da China é insustentatel e se comporta como uma bolha que pode rebentar em breve arrastando tudo e todos. Aí estamos tanto a falar de construtores automóveis como de dividas soberanas - muito do dinheiro que corre na China está "fora dos livros" e muitos temem que quando os dominós começarem a cair a coisa fica preta. Falta ver como o governo chinês lida com a situação - esperemos que melhor que nós.

Sobrecapacidade
Sim, continuo a bater na mesma tecla - é que muito do crescimento de vendas vêm de avultados descontos. Muitas fabricas na Europa estão a operar muito proximo de 50% da capacidade e isso custa às marcas. O mercado europeu esta sobrelotado - quer por fábricas, quer por marcas e a situação apenas se mantem porque são salva pelos governos (Renault e PSA na França, Fiat na Itália e a Opel pelo governo americano via GM). Neste momento apenas os alemães estão a fazer dinheiro e a Renault graças as vendas da Dacia e de participações - algo ou alguem tem que ceder, e temo que infelzimente não vão ser os politicos que continuam a enterrar dinheiro dos contribuintes em empresas com modelos de negócio desadequados - algo que só agrava à incerteza economica e falta de confiança dos consumidores mas vence eleições.

E sim, a questão da divida da Fiat acima mencionada.

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