Tecnologia no automovel - quanto mais é demais?

Foi há algum tempo que argumentei sobre como a grande quantidade de tecnologia de segurança nos automóveis estava a tornar-nos mais perigosos ao volante - as pessoas acreditam serem capazes de quebrar as leis da física porque acreditam que no momento certo a electrónica salvaria o dia! Mas há uma outra tecnologia cada vez mais presente nos automóveis e que já deu uma valente ripeirada na industria livreira, jornais, cinema e musica: a "conectividade".
Será possível que a industria automóvel seja a próxima vitima? Os sistemas multimédia em automóveis são basicamente de ontem mas os smartphones já os estão a substituir: pode comprar o Renault Twingo preparado para usar um smartphone como fonte de multimédia e GPS. E se repararem nas apresentações dos mais recentes automóveis eles tendem primeiro a citar o tamanho do ecrã do sistema multimédia e suas funcionalidades muito antes de quanto demora a ir dos 0 aos 100km\h.

Mas não é a tecnologia em si que me apoquenta - acrescentemos à equação uma nova geração de clientes que vê o automóvel "de maneira diferente": durante muito tempo, e para muitos de nós, o automóvel sempre foi um motivo de orgulho, algo que mostrava que a "vida corria bem" mas cada vez mais o automóvel é apenas algo para nos levar do ponto A ao ponto B - por alguma razão a marca estrangeira mais vendida da Alemanha é a Dacia. Falo do passar de "ter um automóvel" para "servir-se de um automóvel".

Cada vez mais pessoas preferem pagar para utilizar um automóvel do que comprarem um que passa maior parte do tempo parado - temos sistemas que permitem o aluguer de um automóvel ao minuto (o Bolloré Bluecar em Paris agora parceira da Renault e em expansão para outras cidades e países, a Car2Go da Mercedes em várias cidades europeias e americanas e a BMW tem o Drive Now), temos serviços como a Uber e Lyft que não são mais que plataformas tecnológicas que mudam a forma como usamos os automóveis. Temos ainda as aplicações de car-pooling e até as empresas de táxis estão a desenvolver aplicações que permitem melhor agendar as viagens. Para que "ter um automóvel" quando pode "servir-se de um automóvel"?

Falo da "mobilidade inteligente" em que os vários elementos em movimento (automóveis, pessoas, transportes públicos, infraestrutura) comunicam electronicamente entre si e com os seus utilizadores permitindo novas possibilidades e formas de deslocar.

Claro que isso significa que os automóveis não vão desaparecer ou deixar de ser necessários - mas os construtores têm de compreender e aceitar estas novas tecnologias e mudanças sociais, tornando o automóvel mais importante no processo. O problema é que os construtores automóveis não gostam muito de mudança.

E qual é o problema perguntam - se cada vez mais pessoas usam estes sistemas de partilha de automóveis ou serviços como Uber é porque não não estão interessados qual é o carro que lhes aparece à frente, se é um Toyota ou um Audi. Indiferença é o problema - distancia as marcas dos clientes. Imaginemos que cada vez mais pessoas preferem o Renting de um automóvel ou alugar ao minuto e não a compra directa: isso significa que ao invés de lidar directamente o cliente o construtor terá que lidar com empresas de aluguer/frotas, que pelo seu volume são capazes de tirar muito lucro aos construtores. E assim que esse fosso entre construtor e cliente é aberto o construtor perde o controlo sobre as suas próprias operações.

Uma pergunta - se pelo valor de uma assinatura mensal, que seria o mesmo que o pagar de um empréstimo da compra de um automóvel, tivesse ao seu dispor um automóvel para o dia-a-dia, e quando fosse de férias recebesse uma monovolume para a família e para aqueles fim de semana especiais um descapotavel fosse entregue à sua porta, diria que não? Tudo pelo custo de abandonar a ideia de propriedade...Não fica tentado? Eu vou trocar de carro familiar para o ano e estou tentado...

Mas os construtores automóveis não são estranhos ao desafio e pessoalmente acredito que cada desafio é uma hipótese de melhorarem - a menos que sejam como a Rover e nesse caso bon voyage. Da mesma forma que quando os governos não cumpriram a promessa de instalar a rede de carregadores rápidos os construtores começaram (empurrados pelo novato Tesla) a montar as suas próprias redes, os construtores podem também arrancar com as suas ferramentas de mobilidade inteligente onde estes serviços são mais procurados. E não é preciso muito - esta "mobilidade inteligente" é baseada em informação em tempo real, em oferecer forma de pagamento segura fácil de usar, e acesso a transportes públicos e automóveis partilhados. Muita da infraestrutura já existe e tecnologia pode ser incluída nos automóveis (novos ou pós-venda como o Opel OnStar) - só falta descobrir o que os clientes querem e estão dispostos a pagar para ter. E assim não deixar ninguém colocar-se entre a marca e o seu consumidor.

Mas então porque é que os construtores estão a dormir na formatura da "mobilidade inteligente"? Porque estão distraidos com algo que provavelmente não chegara à estrada na minha geração: condução autónoma. Isto se alguma vez chegar...

Não é propriamente uma ideia nova - a GM anunciava essa tecnologia nas Futurama (não, não é a série de TV) dos anos 30, mas creio que os primeiros com a mais recente tecnologia foi a Audi em 2013 quando apresentaram um A7 conduzido por um iPhone. Mais recentemente esse A7 deu várias voltas a circuitos automóveis e até fez uma viagem em estrada aberta de Silicon Valley à CES em Las vegas sem ninguém ao volante. Ok, sem ninguem a segurar o volante...

A BMW e Mercedes já demonstraram as suas versões nos Serie 7 e Classe S, mas não é só construtores de topo: a Renault demonstrou um ZOE autónomo, a Nissan tem um Leaf e a Volvo já testa há algum tempo a sua tecnologia de "comboios terrestres" aqui mesmo ao lado em Espanha.

Se por um lado, os aviões comerciais passam a maior parte do tempo em piloto automático (creio que muitos conseguem descolar e aterrar sozinhos mesmo) a verdade é que infelizmente tão cedo não chega às estradas.Porque?

Se voar é complexo, conduzir ainda mais - nós conseguimos lidar com o bizarro, os computadores não. Eles não compreendem condutores incompetentes, bêbados, estradas mal construídas ou outros cenários que simplesmente não conseguem ser "digitalizados". É curioso que maioria dos acidentes (entre 80 a 90%) são causados por erro humano e mesmo assim estamos mais bem preparados para lidar com o "cenário" complexo e imprevisivel que é a estrada. Então porque é que temos acidentes? Grande parte por falta de bom senso mas também porque somos lentos demais a reagir: um computador demora a fracção de segundo, nós demoramos muito mais.

Mas há outros problemas: estes sistemas só funcionam com bom tempo (com chuva, neve ou outras intempéries não funcionam) e depois há a convenção de Viena. Assinada por todos os países em 1968 diz claramente que tem que haver sempre um condutor atrás do volante capaz de controlar o automóvel. Se isso significa que um automóvel pode ser autónomo com uma pessoa atrás do volante ou se tem que ser a pessoa a conduzir é uma boa pergunta.

E isso traz-me talvez ao maior obstáculo de todos: a questão da culpa. Se há algo importante na sociedade humana (e esposas), é ter sempre alguém a quem apontar o dedo. Imaginemos que um automóvel autónomo tem um acidente - de quem é a culpa? Onde acaba a condução autónoma e a condução humana? Tirando defeito sério de produção, como as infames ignições da GM, os construtores não podem ser responsabilizados pelos danos causados pelos seus automóveis - a velha máxima do "uma arma não mata ninguém, pessoas matam pessoas". Uma coisa é certa: nenhum automóvel autónomo vai para a estrada até os construtores conseguirem garantias que não são responsabilizados por qualquer acidente que o automóvel possa ter independentemente de quem estiver "ao volante".E isso vai ser muito difícil de conseguir.

Curiosamente isso já acontece a si todos os dias - quando aperta o travão do seu automóvel há um computador algures que acciona e liberta os travões automaticamente sem lhe perguntar para que as rodas não bloqueiem e possa evitar um obstáculo. Se ainda não percebeu estou a falar do ABS que é obrigatório há vários anos em todos os automóveis novos. Ou seja, ao retirar o humano da travagem tornamos o automóvel mais seguro. Agora acrescentem o cruise-control com radar, sistemas de estacionamento automático, a travagem de emergência em cidade e até já há caixa automáticas com cartografia GPS que decidem sozinhas qual é a melhor velocidade a engrenar - há muito que os computadores tomaram conta do automóvel e retiraram, em algumas funções, o humano da equação.

Portanto, é possivel fazer os automóveis autónomos viáveis?
Medo e desconfiança de algo novo é humano, e um dos grandes problemas será como convencer o publico de que automóveis autónomos podem funcionar. Como disse acima automóveis completamente autónomos estão ainda a muitos anos de distância, décadas até, mas parcialmente autónomos estão já ao virar da esquina. E vão ser estes sistemas semi-autónomos que podem abrir o caminho para os completamente autónomos no futuro.

Consegue condução semi-autónoma (em auto-estrada e estrada aberta) combinando o cruise control activo com os sensores e câmaras periféricas dos sistemas de travagem automática, de manutenção de faixa de circulação e estacionamento automático. E muitos automóveis já dispõem de quase todos (se não todos) estes sistemas. E isto depende apenas e só dos construtores automóveis.
Mas para passar a condução completamente autónoma será necessário que quer o automóvel quer para a infraestrutura sejam adaptados a esta tecnologia. E ai reside talvez o maior problema: como convencer as cidades e governos a investir na adaptação das estradas e a tecnologia de comunicação necessária, para algo que no futuro próximo apenas uma pequena percentagem dos condutores estão interessados e do qual as cidades/governos não terão qualquer retorno financeiro directo?

A grande vantagem da condução autónoma será na gestão da condução em cidade, mas para isso terá que haver forma de redirecionar o transito conforme o destino desejado com base na informação de tráfego em tempo real. É preciso uma rede de comunicação "veiculo-terra" rápida fiável com uma solução Cloud que permita todos os sistemas falem uns com os outros, mas que seja capaz de compensar tuneis bem como outros obstáculos e seja à "prova de humanos". O hardware automóvel também terá que ser muito mais avançado: os GPS's actuais do seu carro tem uma margem de erro que pode ir até 100 metros, o tal aquele Audi A7 que tem feito as rondas dos eventos tem um GPS militar com uma margem de erro de 2 centímetros e sensores colocados em vários pontos da estrada. E isso paga-se caro.

A Google diz que o seu automóvel autónomo começara a ser demonstrada algures entre 2018 e 2019, a maioria dos construtores apontam entre 2022 e 2025 - mas como eu disse, estes sistemas não dependem apenas "deles" e aí está o problema: entre algo que está a ganhar momento agora que os construtores podem aproveitar para melhor ligar ao seu cliente e algo que poderá acontecer mais adiante que não depende totalmente deles, a industria automóvel está a deixar escapar uma oportunidade que pode vir a morder-lhes os calcanhares muito em breve.

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