Quando ontem vi as primeiras imagens imediatamente quis saltar para o teclado para comentar mas duas coisas fizeram-me parar e esperar - uma foi o olhar de fúria que a minha cara-metade me deu e a outra era que as primeiras reações normalmente não são as melhores. E ainda bem porque além de não ter sido feito para os gostos europeus é uma daquelas apostas raras no mundo automóvel. Se bem que a Ferrari tem uma vantagem que poucos têm...mas já chego lá.
Numa altura em que a Lamborghini cancela os seus planos elétricos e a Porsche seriamente reduz os seus a Ferrari, palavra sinônima de vistosos coupés desportivos de 2 lugares com grandes e sonantes motores, acaba não só de apresentar o seu primeiro modelo 100% elétrico mas também o primeiro modelo de 5 lugares da marca italiana.
A maioria dos fãs, eu inclusive, provavelmente gritaram sacrilégio e algumas avôs italianas certamente foram buscar as forquilhas, mas esta aposta (e reação do publico) não foi muito diferente de quando a Porsche apresentou o primeiro Cayenne ou Panamera. O Ferrari Luce, tal como os acima mencionados Cayenne e Panamera, oferecem às famílias com dinheiro (a mais) 5 lugares superconfortáveis, acabamentos de luxo, uma mala com mais de 600 litros (para sacos de golf provavelmente) e performances de topo.
É controverso? Definitivamente. Quebra com a longa tradição da Ferrari? Absolutamente. E tiro o meu metafórico chapéu à Ferrari porque não entraram com muito cuidado nas pontinhas dos dedos com um modelo de produção limitada ou eletrificaram algo que já produziam, mas avançaram com algo completamente novo para tentarem libertar do molde. Tal como a Porsche e Lamborghini fizeram.
Foi claramente desenhado para alguém que já tem vários Ferrari mas querem algo confortável e pratico para o dia-a-dia que pode ser associado ao que tem na garagem enquanto pode dizer que está a salvar o planeta conduzindo diariamente um elétrico.
Nas imagens o Ferrari Luce parece compacto mas na realidade é o Ferrari mais longo de sempre, maior até que o SUV Purosangue com quem partilhas as 4 portas de abertura oposta: tem 5,03 metros de comprimento (Purosangue - 4,97 metros) com 2,96 metros entre rodas (Purosangue - 3,02 metros), tem 2 metros de largura sem contar os espelhos (Purosangue - 2,03 metros) e 1,54 metros de altura (Purosangue - 1,59 metros).
Segundo a Ferrari a forma exterior foi desenhada em torno da superfície vidrada e arrisco que parece um Mythos dos anos 80 mas com 4 portas. O perfil do Luce recorda-me do design cab-forward dos Chrysler do passado recente. À frente tem uma espécie de asa dianteira de grande dimensão como o Jaguar I-Pace ou o Dodge Charger Daytona na cor da carroçaria com um capot em preto por debaixo. As luzes e a frente são completamente novas.
As laterais são planas com a linha de cintura ascendente para cima dos para-lamas traseiros que recorda um pouco o 458. O Luce usa enormes jantes de 23 polegadas à frente e 24 atrás (também aparentemente as maiores em todos os Ferrari de estrada até agora) puxadas para as extremidades. Pode ir para as desportivas de 5 braços, mas a versão aerodinâmica melhora a autonomia em 5%.
Atrás a traseira é retangular com dois pares de farois circulares - a Ferrari aponta a inspiração aos 360 Modena e 458 Italia, mas sinceramente vejo um pouco de Nissan Skyline ou Chevrolet Impala.
O interior, ao contrário do exterior, tenta alinhar com a tradição com bastantes botões e comandos físicos. O volante é esculpido de uma peça única de alumínio com manetes atrás do volante e o conjunto de instrumentos que inclui uma conta quilômetros analógico está ligado à coluna de direção para que esteja sempre visível.
O volante não tem um mas dois "Manettinos" - o da direita controla a suspensão e controlo de tração, incluindo desligar o ESC. O segundo controlador é o "e-Manettino" para determinar os níveis de potência disponíveis. Atrás do volante tem as manetes que permite selecionar os 5 níveis do Torque Shift Engagement (TSE - como o Renault 11 que o meu pai teve) que aumenta a potência e reduz a travagem regenerativa por nível - que o pode deixar em modo Auto se preferir.
Mistura vários tipos botões físicos com o ecrã táctil - o meu favorito é o botão no tejadilho que puxa para ativar o launch control.
O ecrã táctil central para o sistema multimédia pode rodar para o passageiro dianteiro e tem comandos físicos para a climatização.
O interior parece espaçoso, já que não tem túnel de transmissão para o eixo de transmissão, permitindo sentar 3 adultos atrás que tem acesso a um pequeno ecrã e saídas de ventilação.
Na lista de opções encontrará assentos com função de massagem, assentos traseiros reguláveis, sistema áudio de 21 colunas e 3.000 W e muito mais. A mala atinge 597 litros, basicamente um Skoda Octavia.
A mecânica também não é propriamente tímida - 4 motores elétricos (um por roda) montados numa subestrutura ligada ao chassis principalmente em alumínio via blocos amortecedores para um total de 772 kW/1.050 cavalos alimentados por uma bateria estrutural de 122 kWh via um sistema elétrico de 800 volts compatível com carga rápida DC até 350 kW.
Tudo somado e o Ferrari Luce é capaz de acelerar os 5 ocupantes e 2.260 quilos de automóvel 8um pouco mais que o Purosangue) dos 0 aos 100 km\h em 2,5 segundos e 200 km\h em 6,8 segundos. A velocidade máxima é de 310 km\h e segundo a Ferrari é capaz de uma autonomia (não homologada ainda) de 530 quilômetros. Para comparação o Porsche Cayenne Turbo faz basicamente o mesmo, mas o Luce fá-lo em luxo e conforto.
Para ajudar à experiencia de condução a Ferrari resolveu inspirar-se numa guitarra elétrica para "gerar" o som - incorporaram um acelerômetro de alta precisão no eixo traseiro para capturar a vibração que depois de filtrada e amplificada é transmitida ao interior. Ou seja, não é 100% sintética como todos os "outros elétricos que os plebeus compram". E sim, pode ser desligado.
Mas a potência depende do modo de condução:
- em modo Range desliga os motores dianteiros e reduz a potencia para 430 cavalos;
- em modo Tour liga os 4 motores, aumenta a potencia para 617 cavalos e permite a velocidade máxima;
- modo Performance aumenta a potência para 972 cavalos, ativa o som "semissintético" e com o launch control salta para os 1.035 cavalos domados com a ajuda da NASA. A sério.
Recebe uma versão melhorada da suspensão ativa do F80 e direção independente nas rodas traseiras controlada eletronicamente.
Preços arrancam nos 520.000 euros antes de adicionar opcionais ou personalização.












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