Toyota Auris Touring Sports Hibrida - Ensaio

Devo dizer que estava com alguma curiosidade em conduzir este Toyota Auris Touring Sports - sou um grande apreciador do formato, planeio trocar de automóvel no próximo ano e na altura que comprei o nosso actual carro de família cheguei a ir à Toyota - infelizmente o 1º Auris não tinha carrinha disponível.
 
Para mim foi talvez um dos grandes erros da Toyota com o 1º Auris - as carrinhas compactas tornaram-se muito populares representando 25% das vendas neste segmento e quase todas as marcas oferecem uma versão "carrinha" das suas propostas do segmento C: Renault Megane, Peugeot 308, Volkswagen Golf, Ford Focus e muitas outras. Vendo o seu erro a Toyota trouxe na segunda geração do Auris esta Touring Sports, que apesar de estar disponível com os já conhecidos motores a gasolina e diesel, trás a novidade de ser a 1ª carrinha compacta com motorização híbrida - foi esta a versão que tive hipótese de conduzir em Sintra.
 
Estou muito curioso em conhecer a Auris Touring Sports, mas ainda mais curioso para ver se a motorização híbrida funciona na vida real num automovel familiar?
 
1º contacto
Desde o GT86 e depois do Aygo que a Toyota deixou de esconder a sua engenharia debaixo de formas tristes, sem personalidade - este novo Auris tem força, presença e é ainda mais belo no formato de carrinha. Quando colocada lado a lado, a versão 5 portas clássica e a carrinha, dá impressão que "falta algo" à versão 5 portas - a carrinha parece mais proporcional, mais completa. Sim, eu sei que gostos não se discutem...
 
Relativamente ao modelo de 5 portas normal a única diferença é mesmo a secção traseira do eixo traseiro para trás que é mais comprida em quase 30 centímetros e vai tudo para a mala. Esta é baixa e larga com o conjunto de baterias a ser escondido debaixo dos bancos dos passageiros.
 
Segundo o catálogo oficial tem uma capacidade de 530 litros mas rebatendo os bancos (que pode ser feito com um botão) passa a 1658 litros e é capaz de transportar objectos até 2,047 metros. Se acha que estes números são comuns, tem toda a razão - são iguais a outras propostas do mesmo segmento excepto que nesta conseguiram meter um sistema eléctrico juntamente com o "clássico" sem prejudicar o espaço interior e isso é impressionante.
 
Sei que debaixo do capot deste exemplar em branco imaculado está o sistema de propulsão híbrida Toyota HSD que combina um motor a gasolina de 1.8 litros e um motor eléctrico de 80 cavalos que geram uma potência máxima de 136 cavalos - mas também poderia estar (a gasolina) um motor de 1,3 litros (100 cavalos e 128Nm de binário) ou 1,6 litros (132 cavalos e 160Nm de binário), e a diesel o 1,4 litros (90 cavalos e 205Nm de binário) ou um 2 litros (124 cavalos e 310Nm de binário).
 
Mas se pensa que é apenas uma questão de escolher o que quer debaixo do capot não é assim tão simples: ao ler as especificações notei que os modelos equipados com o 1.6 litros a gasolina, o 2.0 litros diesel e híbrida tem atrás uma suspensão de rodas independentes com duplos triângulos sobrepostos enquanto as restantes motorizações recebem uma barra de torção simples. Posso dizer, por experiência de outros automóveis, que a diferença nestas suspensões é muito grande em comportamento especialmente se circular carregado. Mas chega a hora de saltar a bordo...
 
 
Bem-vindo a bordo
Ainda recentemente conduzi o novo Peugeot 308 e fiquei admirado pela qualidade de materiais usados a bordo como os plásticos moussados, aplicações cromadas e preto piano - mas a Toyota pensa diferente: os diversos componentes e materiais são pensados para durar e só usa aqueles que acredita durarem o teste do tempo.
 
Os assentos de couro são confortáveis e não tive qualquer problema em encontrar uma boa posição de condução - se bem que demorou a perceber que a altura do assento era controlada por uma alavanca do lado esquerdo e a inclinação das costas era controlado por outra alavanca também do lado esquerdo...fácil enganar.
 
Uma vez confortável atrás do volante dá para perceber que tentaram criar um habitáculo focado no condutor - temos a cobertura superior do tablier, forrada a pele, que flui até à consola central e delimita todos os comandos como que dentro do módulo do condutor.
 
Temos a minúscula manete (creio que Joystick é mais apropriado) de velocidades do Prius o que liberta mais espaço entre os bancos dianteiros - só não percebo porque é que não foram para o travão de pé do Prius (ou mesmo um eléctrico) e assim teria ainda mais espaço entre os passageiros dianteiros.
 
Os plásticos são simples, mas resistentes - podem não ser tão bonitos e brilhantes como em alguns dos concorrentes, mas daqui a 5 anos vão ter o mesmo aspecto que têem agora. É também no tablier que encontro o que mais me irritou no Auris Touring Sport - o relógio digital. Parece que foi algo criado nos anos 90!
 
Encontrei arrumação um pouco por todo o lado no interior - temos o porta-luvas, uma caixa para óculos de sol no tejadilho e outra de moedas, ganchos para casacos, suportes para garrafas e para copos, apoio de braços deslizante, arrumação de pequenos objectos no painel de bordo e outros.
 
Sentado atrás há espaço para 3 ocupantes médios, o fundo é basicamente plano sem aquele túnel central que muitos modelos têm e limita o espaço do passageiro do meio. Infelizmente, apesar do ar condicionado de 2 zonas não há saídas de ar condicionado/ventilação para os lugares traseiros. E já que falamos de ar condicionado, ao contrario de muitos automóveis que desligam o ar condicionado quando o stop-start entra nos híbridos Toyota continua a funcionar.
 
Com a motorização híbrida pode escolher o nível de equipamento Confort ou Exclusive, e foi este ultimo que conduzi. Basicamente tinha quase tudo: couro por todo o lado, ar-condicionado automático dual zone, abertura e arranque mãos livres, sistema de ajuda ao estacionamento "Park Assist" (inclui sensores de estacionamento frontais e traseiros), radio CD com 6 colunas, Bluetooth, sistema multimédia Toyota Go e outros brinquedos - gostaria de ter tido hipótese de experimentar o estacionamento automático.
 
Mas na unidade que testei tinha uma outra opção muito interessante: o tecto solar Skyview (enorme com 1553 mm de comprimento por 960 mm de largura) que dá uma sensação de espaço e luminosidade muito interessante.
 
Confesso que atravessar Sintra podendo apreciar todos os sons, cheiros (já que circulávamos quase todos em modo eléctrico) e cores foi mesmo muito bom.
 
Decididamente um opcional recomendável...


Condução
Antes de falar sobre a experiência na estrada tenho que dizer infelizmente não tive a hipótese de passar tanto tempo com o Auris Touring Sports como gostaria - tivemos um passeio pela zona de Sintra (e arredores) e uma prova em pista.
 
Mas não cumprindo exactamente "o planeado" consegui tirar algumas ideias sobre a condução. E se tiver que resumir em poucas palavras diria que o Auris híbrido gosta de ser conduzido com suavidade - se é daqueles que gosta de sentir aquela "pancada" quando se esmaga o acelerador provavelmente irá preferir outra motorização.
 
Neste sistema híbrido da Toyota (comum a todos os modelos) há 3 "motores" envolvidos - o motor clássico, o gerador e o motor eléctrico/gerador ligados por um sistema planetário de velocidades, ou seja, estão todos interligados. Este sistema mantém o motor a combustão (quando ele está a funcionar) nas rotações mais eficientes algo que o mantém relativamente discreto. Ao acelerar parece uma automática, arrasta um pouco, não tem aquela resposta rápida, energética de um motor turbo-diesel.
 
Mas a verdade é que até anda bem, é muito linear, apenas não o faz de forma muito espalhafatosa e como o ruído/rotação do motor muitas vezes não bate certo com a velocidade consegue ser um pouco desconcertante. Depois de passar o dia atrás do volante dos vários híbridos Toyota posso concluir uma coisa: é dos automóveis mais relaxantes de conduzir, sem stress. Deve ser impossível sofrer de "road-rage" ao conduzir um Toyota híbrido - se tem problemas de nervos ou até tensão alta, este pode ser o carro certo para si. Uma motorização medicinal eu digo-vos.
 
A caixa de velocidades tipo variação continua permite em cidade uma condução suave, extremamente linear sem qualquer soluço e se a carga da bateria o permitir, podemos circular sem qualquer ruído. Acho Sintra uma cidade magnifica, algo apenas possível nos livros de contos, mas a "piece de resistance" é mesmo atravessa-la com as janelas e tecto de abrir aberto, e apreciar todos os sons e cheiros da serra de Sintra no completo silencio do modo eléctrico - simplesmente magnifico.
 
As suspensões absorviam muito bem o paralelo e mesmo circulando em modo 100% eléctrico pouco ruído transmitia ao interior. A direcção é leve e consistente, assistida mas não em demasia. Fora da cidade e a velocidades mais altas (não que tenham sido muito altas) transmitia segurança sem ser dura demais.
 
Na cidade parece perfeito, na estrada aberta nem tanto - o motor parece que fica a remoer quando aceleramos com força. A um ritmo tranquilo facilmente nos adaptamos e até apreciei, mas os impacientes ou adeptos de uma condução mais dinâmica são capazes de se sentir à mingua. O chassis é equilibrado e a travagem bastante eficiente. A insonorização é cuidada e as suspensões confortáveis.
 
A travagem pareceu-me forte e eficaz - só conduzi em seco e em alcatrão, mas tive hipótese de abusar um pouco durante o curto percurso e no "challenge de consumo" (que ignorei - espero que não se tenham chateado comigo). Mesmo abusando não dei pelo controlo de estabilidade e graças aos travões sobre-dimensionados para a motorização híbrido trava muito bem.

 
Concluindo
Primeiro falemos da Auris Touring Sports apenas e só - confesso que gostei: é um automóvel bonito, pratico e espaçoso. A suspensão era confortável, fácil de conduzir e vem bem equipado. O interior pode não ter os materiais "brilhantes" como alguns da concorrência mas se procura algo que resista ao tempo, crianças, bicicletas e cães que quase todos que compram carrinhas têem, então ficara satisfeito - passei o dia a atirar portas e a socar botões, sinceramente falando tudo parecia assente em granito.
 
Sim, alguns detalhes podiam ter sido melhorados: podia ter um pouco mais de espaço para as pernas atrás, tem ar condicionado dual-zone mas sem saídas para o banco traseiro e aquele relógio tira-me do sério! A suspensão era confortável mas sem ser dinâmica, era agradável mas não exactamente emocionante - dito isto, é uma carrinha compacta não um GT86. E esta é uma boa carrinha compacta.
 
Gostaria de ter tido mais tempo ao volante - experimentar conduzir em auto-estrada e nacionais, testar o sistema multimédia e de estacionamento automatico e muitas outras coisas.
 
Pontos positivos:
-Tecnologia híbrida incorporada
-Equilíbrio comportamento vs conforto
-Suavidade (e economia em cidade)
-Espaço interior não afectado pelo sistema híbrido
-Possibilidade de mobilidade eléctrica em cidade
-Fiabilidade e garantia Toyota (ver abaixo)
 
Pontos negativos:
-Motorização híbrida precisa de habituação
-Interior "triste"
-Podia ter mais espaço de pernas atrás
-Plug-in?
 
Ok, pará lá de adiar e a motorização híbrida?
Creio que a primeira pergunta é se consegue adaptar a sua condução ao sistema híbrido? Como disse este sistema da Toyota tem a sua forma de operar caracterisitca que alguns podem não conseguir adaptar-se - vá ensaiar um e descubra.
 
A Toyota desenvolveu este sistema pouco depois da crise petrolífera de 1973 com o objectivo de criar um automóvel de baixo consumo de combustível (logo baixas emissões), mas pelo meio criaram também um automóvel económico de manter. Estes motores não têm correia de distribuição, não há embraiagem para mudar, não há filtro de partículas diesel para ficar colmatado por circular demais na cidade, não tem que adicionar aditivos de ureia como nos diesel Euro6, os discos de travões são os da versão diesel e grandes demais para a versão híbrida - segundo a Toyota Portugal é comum os discos e calços de travões dos Prius durarem mais de 100.000 km, ora como os Auris híbridos usam discos e calços ainda maiores é bem provável que durem mais que 100.000 km antes de precisarem de ser mudados.
 
Segundo a Toyota, no conjunto dos serviços de manutenção e de reparação, os custos podem chegar a ser mais do que 50% inferiores aos dos concorrentes equipados com motores diesel.
 
As baterias têm uma garantia até 10 anos e para prolongar a garantia depois desse período basta ir a um concessionário Toyota para fazer um diagnóstico e se tudo bater certo é prolongada sem qualquer custo. Se alguma dúvida resta, as vendas dos híbridos Toyota na Europa têm crescido a um ritmo cada vez mais rápido - ou seja, muitos fizeram as contas e chegaram à conclusão que pode valer a pena.
 
Há depois alguma futurologia a fazer - depois de tanto tempo habituados ao motor diesel, muito em breve a escolha não será tão facil: com o apertar dos limites de emissões (especialmente de partículas e NOx) os motores diesel vão tornar-se cada vez mais caros ao ponto que em certos segmentos são simplesmente impraticaveis - veja-se os novos Aygo/107/C1 que não têm motor diesel disponível.
Temos também já ai a chegar a cidades por toda a Europa zonas de baixas emissões onde só certos automóveis terão acessos - Londres por exemplo ponderá proibir automóveis privados com motores diesel abaixo do padrão EU6 (antes de 2014) e gasolina EU4 (antes de 2005) de entrarem na zona de Congestão apartir de 2020. Já automóveis eléctricos e híbridos têm acesso livre. Se teme investir num híbrido porque, tal como num smartphone teme ficar com tecnologia desactualizada, olhe que são os automóveis "clássicos" mais expostos a esse problema.
 
E preços? Bem segundo o site da Toyota para o nível de equipamento Confort o 1.4 Diesel começa nos 25.450 euros e o híbrido custa 26.875 euros. No nivel de equipamento mais alto Exclusive o 1.4 Diesel custa 28.005 euros, é possível ter o 2 litros diesel (apenas disponível neste nível de equipamento) a 33.450 euros e o híbrido a 29.035 euros.
Estamos a falar de uma diferença média de pouco mais de 1.000 euros, mas não esquecer que a suspensão traseira da versão híbrida é diferente e muito mais eficaz que a usada no 1.4 diesel.
 
Compravas um?
Costumo perguntar-me se compraria um - bem, tendo em conta que ainda penso vir a adquirir uma caravana e a Toyota Portugal não importa directamente o kit que reforça o sistema eléctrico para poder rebocar pesos maiores teria provavelmente ficar-me por uma versão a motor clássico. Tenho uma short-list de carrinhas para o próximo ano e esta Auris Touring Sport está lá - só um problema: a esposa quer algo com 7 lugares e como comprei o Twizy posso vir a ter que lhe fazer a vontade...

2 comentários:

  • Hugo says:
    23 de maio de 2014 às 14:01

    Turbo-lento...

    E que tal a nova Civic Tourer??? :-)

  • Turbo-lento says:
    26 de maio de 2014 às 00:04

    Ainda não tive hipótese de ensaiar uma - quem sabe um senho da Honda não se importa de emprestar uma?
    No Honda Civic há 2 pormenores que me preocupam - o design que pode cansar um pouco e o novo motor 1.6 cdti que ainda não li muita coisa sobre ele. Terei que ver se o ensaio um dia

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