DeLorean DMC-12 - história sobre rodas

Podemos não nos aperceber mas há dezenas de construtores automóveis a surgirem e desaparecer todos os anos - já ouviram falar da Isdera, Gurgel, Allard, Excalibur ou a AC portuguesa? Nomes que apenas alguns recordam e a DeLorean Motor Company devia pertencer a esta longa lista de nomes esquecidos não fosse à participação na trilogia Regresso ao Futuro.
Mas isso seria sobre-simplificar a historia da DeLorean e do DMC-12: a historia da DeLorean é das mais interessantes do mundo automóvel - temos o sonho de um homem, uma mulher poderosa enganada, desfalques e drogas...


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Como muitas historias do mundo automóvel, é tanto a historia do seu criador como do automóvel em si - escrevo esta linha depois de terminar todo o artigo e não sei sobre quem escrevi, homem ou a máquina.
John Zachary De Lorean é um filho de Detroit - nasceu (1925), cresceu, estudou e começou a sua vida profissional na Motor City.
Saído da Chrysler Institute com um diploma em Engenharia automóvel começou por trabalhar na Chrysler, mas em menos de um ano foi recrutado para a Packard Motor Company onde deu nas vistas com várias melhorias às mecânicas do mais pequeno construtor independente dos EUA.
Em 1956 DeLorean muda-se para a General Motors onde chega a assistente ao engenheiro-chefe e ao director Semon Knudsen da Pontiac, uma marca da GM. Ambos Knudsen e DeLorean eram dos mais jovens quadros superiores da GM e rapidamente se tornaram amigos.

E ai entra talvez a mais reconhecido feito de DeLorean na Pontiac - o Pontiac GTO (Gran Turismo Omologato), o primeiro muscle car de sempre.
A Pontiac ganhou fama na competição automóvel mas teve que parar em Janeiro de 1963 porque a GM proibiu as suas marcas de participarem em competições automóveis. Ao invés de simplesmente desistir a Pontiac resolveu aplicar esse conhecimento aos seus automóveis de estrada - o resultado foi o desenvolvimento, no inicio como um pacote opcional e mais tarde como um modelo completo: o GTO. Marcou a Pontiac como a marca de performance da GM.

Com o sucesso dos Muscle cars, que ajudou a criar, Delorean quis ir atrás do Ford Mustang mas a direcção da GM não o deixou com medo de prejudicar o Corvette. Ao inves de produzir um automóvel de raiz, deram-lhe o Camaro e um orçamento muito reduzido para criar algo para a Pontiac - DeLorean criou o Pontiac Firebird de 1967 que foi muito popular, batendo o Corvette.
Depois do sucesso do Firebird, DeLorean continua a dar nas vistas com o novo Pontiac Grand Prix de 1969 - se a geração anterior vendeu 32.000 unidades, a versão de DeLorean vendeu 112.000 unidades.

Os sucessivos sucessos de DeLorean tornaram-no numa espécie de celebridade, chegando mesmo a viajar pelo mundo para participar em eventos promocionais. Com a queda dos lucros de todas as marcas da GM com a excepção da Pontiac tinha chegado a hora de DeLorean partir para a marca principal do grupo: a Chevrolet.

Em 1972 DeLorean chega a vice-presidente da produção de automóveis e pick-ups para todas as marcas da GM e um dos poucos candidatos a futuro CEO da marca, mas tinha contra si os restantes executivos porque Delorean recusava-se a "seguir a mentalidade do grupo".

E em 2 de Abril de 1973 John DeLorean anuncia que vai deixar a GM para se dedicar a outros projectos - sai dizendo que na GM não se pensa no que o cliente quer, e que muitas das vendas do grupo devem-se à politica de descontos para convencer clientes a comprar automóveis sem graça que não têm interesse em comprar.


Nasce o sonho
John DeLorean queria construir algo que a GM nunca aceitaria fazer - um automóvel desportivo que cativa-se o publico e fosse capaz de rivalizar com os BMW CS, com portas tipo Gaivota como o Mercedes 300SL e carroçaria em aço inox para durar. Algo que simplesmente não existia.
Conseguiu convencer Bill Collins, um dos grandes engenheiros da GM, a ajudá-lo e entre 1973 e 1974 estiveram a trabalhar no conceito. DeLorean consegue convencer a seguradora Allstate Insurance Company a investir 500.000 dólares no "De Lorean Safety Vehicle (DSV-1)" na perspectiva de que as tecnologias poderiam ser vendidas a outros construtores - claro que o objectivo de DeLorean não era esse: "meio para um fim".

E se o designe tinha que arrebatar os clientes, então vai-se ter com o melhor da industria e no fim de 1974 DeLorean e Collins foram ter com Giorgetto Giugiaro na Ital Design. DeLorean deixou algumas exigências (as portas em gaivota, os para-choques serem incorporados, o motor em posição central, a carroçaria em aço inox e ser capaz de transportar pessoas altas) mas o designe em si foi todo trabalho do génio de Giugiaro.



Inicialmente estava previsto um motor rotativo Wankel, mas quer a Citroen ou Mazda não estavam interessados em o fornecer. Ainda consideraram o V6 da Ford, o 2 litros do Citroen CX mas acabaram por se ficar com o V6 PRV. Esta escolha levou à primeira grande modificação do concept de Giugiaro - o motor teve que ser reposicionado atrás do eixo traseiro para que houvesse espaço no interior para 2 pessoas e um saco de golf...sim, era um requisito ter espaço para um saco de golfe atrás do assentos.

A construção da carroçaria era novo, chamado "Elastic Reservoir Moulding" permitia a colagem dos painéis de aço inox à subestrutura e quando foi apresentado em Outubro de 1976 como um modelo estático a revista americana Road e Track chamou o DMC-12 de "Sensação/Sensacional".

vídeo do 1º protótipo
Enquanto o primeiro protótipo passou a maior parte de 1977 a fazer as rondas dos jornalistas e concessionários, um segundo prototipo estava a ser construído para estudar as soluções de engenharia. Nos entretantos John DeLorean corria o mundo a convencer bancos e investidores a darem financiamento por troca de uma parte da empresa - e todos saltaram a bordo.
Com 2 protótipos construídos começou a procura pelo local onde produzir o DMC-12: a primeira oferta veio de Porto Rico com uma bênção de 60 milhões de dólares e uma base militar abandonada do governo americano. Uma boa localização, bom financiamento e proximidade ao mercado americano. Mas eis que surge uma outra oferta: 117 milhões de euros de subsídios se DeLorean montasse a sua fábrica na Irlanda do Norte. Muito dinheiro, mas também muito risco - estamos a falar da Irlanda do Norte dos anos 70, o que era basicamente um campo de batalha.
Mas dinheiro era o que DeLorean precisava e em 1978 chegou a acordo com uma certa Thatcher - provavelmente a escolha que viria a condenar a DMC ao falhanço.


Tornar o sonho realidade
John DeLorean começou então a montar a sua estrutura - além da fabrica em Dunmurry (próximo de Belfast - que ainda existe actualmente), montou um centro logístico em Coventry para gerir toda a cadeia de fornecedores e foi visitar a Lotus para transformar os seus protótipos em automóveis que pudessem sem produzidos em série. Fazia sentido - DeLorean queria um desportivo de charme europeu e como a Lotus fazia trabalho de consultoria rapidamente assinou um contrato com Colin Chapman para tornar o DMC-12 realidade.
Foi aqui que as coisas começaram a correr mal - Collins viu o seu trabalho alterado (basicamente utilizaram uma estrutura do Lotus Esprit) e descaracterizado por Chapman que se recusava a colaborar.

Quando a DMCL foi fundada em Outubro de 1978 começava absolutamente do zero - o carro não estava ainda desenvolvido e se hoje em dia é normal desenvolver um modelo em várias localizações naquela altura era algo completamente novo: coordenar o desenvolvimento com a Lotus em Hethel com o departamento de compras em Coventry que depois tinha que ir à procura de fornecedores e tudo isto enquanto monta uma fábrica na Irlanda do Norte onde apesar de haver muita mão de obra disponível nenhuma tinha experiência em construir automóveis ou havia infraestrutura para esta industria.
Era preciso fazer tudo o acima descrito e os primeiros automóveis de pré-série tinham que sair da fábrica em Maio de 1980 e um ano mais tarde a produção tinha que atingir 30.000 unidades por ano. E para tentar o impossível John DeLorean ficou nos EUA e deixou 2 homens muito experientes à frente da operação na Irlanda: Barrie Wills (compras) e Chuck Bennington (ex-GM).


A 21 Janeiro de 1981, 8 meses tarde demais e 34 milhões de libras acima do orçamento, os primeiros DMC-12 saem da linha de montagem em Dunmurry.
Pode ter sido terminado com o mesmo nível de cumprimento de obras publicas portuguesas e as primeiras unidades não foram lá muito bem construídas, mas se formos sinceros, o mesmo se aplica a tudo o que a industria automóvel britânica produzia naquele período. Mas com o tempo a qualidade foi melhorando.
Os primeiros ensaios foram "agradáveis" digamos - apesar de se queixarem do preço elevado e da suspensão alta demais que lhe dava um comportamento ligeiramente ondulante, os americanos adoraram-no e diziam que John DeLorean iria juntar-se a Henry Ford como os grandes americanos da industria automóvel.
 (vídeos de vendas)
Mas antes que a produção pudesse estabilizar a tempestade veio - a recessão instalou-se nos EUA, as vendas começaram a desacelerar ao fim do primeiro ano e os DMC-12 começavam-se a acumular.

Com as finanças ainda muito frágeis a DMC precisava de dinheiro. John DeLorean fez a ronda dos seus investidores e tentou espremer mais dinheiro da senhora Thatcher, mas sem sucesso. Em Janeiro de 1982 um plano de emergência foi colocado em prática que incluia, entre várias outras medidas, a fabrica passou a trabalhar apenas 3 dias por semana, a versão europeia do DMC-12 começou a ser desenvolvida rapidamente mas infelizmente era tarde demais - o dinheiro tinha acabado.
A 19 de Fevereiro foi colocada em gestão pelo tribunal sendo formada a DMC Ltd. Foi financiado o desenvolvimento de automóveis para o Reino Unido enquanto se preparava um plano para viabilizar a empresa - mas havia uma data limite: 31 de Julho, 6 meses para dar a volta. Algo que John DeLorean não estava muito preocupado porque estava convencido de que o governo britânico iria entrar com dinheiro para não encerrar a fábrica e despedir toda a gente...

O responsável pelo marketing Tom Ronayne não esperou muito e começou uma ronda europeia a tentar cativar concessionários para vender a versão europeia do DMC-12 com bom feedback. Mas com a necessidade de retomar o trabalho em Dunmurry e despachar o stock a equipa de gestão teve uma estranha ideia.

Em 1981 a British Leyland desistiu do Triumph TR7 que foi um verdadeiro falhanço mas Wills e Bennington viram no fim do TR7 uma possibilidade e contactaram a BL para adquirir as ferramentas de produção e direitos sobre o designe do TR7/TR8 para os fabricar sobre a marca DMC na fabrica da Irlanda do norte. A 29 de Julho a BL respondeu que poderiam ter todo o material e direitos desde que os automóveis que produzissem não fossem muito semelhantes aos TR7/TR8...tendo em conta que foi isso que enterrou o TR7 creio que não era um problema.
Wills e Bennington conseguiram o apoio financeiro para esse projecto que iria trazer trabalho e uma fonte de rendimento à DMC, mas a 19 de Outubro de 1982, e após uma operação de 4 meses, o FBI prende John DeLorean num hotel de Los Angeles com uma mala de cocaína.
Essa foi a pedra final e o fim dos esforços de Wills e Bennington - com o governo britânico não interessado em salvar uma firma marcada pelo escândalo, quase 2 anos e 9.500 unidades depois o sonho tinha chegado ao fim. 

Num revés interessante, DeLorean consegue escapar à cadeia - aparentemente foi um vizinho que meteu DeLorean nesse negocio sabendo que ele precisava de dinheiro para salvar a DMC mas disse ao FBI o contrário. Citando o desespero de John DeLorean em salvar a DMC e a armadilha pelo FBI o júri deixou-o ir em liberdade.


Regresso ao futuro
Mas o que parecia apenas o fim de mais um construtor automóvel o DeLorean DMC-12 é transformado num ícone graças a Hollywood e à trilogia Regresso ao Futuro.
A "máquina do tempo" do filme "Regresso ao Futuro" foi evoluindo à medida que o filme foi sendo escrito. Inicialmente era um dispositivo laser dentro de um quarto (tipo "Querida encolhi as crianças") e quando enfim concluíram a história era um aparelho ligado a um frigorífico transportado para uma zona de testes de bombas atómicas...

Foi o realizador Robert Zemeckis que recusou a ideia do frigorífico porque não queria que crianças começassem a trepar para cima dos frigoríficos dos pais e no terceiro rascunho do filme já era um automóvel. E nessa altura o julgamento de John DeLorean estava em todos os noticiários e rapidamente decidiram ir para um DMC-12.

O designe futurista encaixava no papel, e também foi retirada a parte de "atravessar uma zona de testes nucleares" por ser considerada cara e complicada demais - daí o famoso relâmpago no 1º filme e o "Mr Fusion" apartir daí.
O primeiro esboço do DeLorean para o filme foi feito pelo artista Andrew Probert mas foi considerado "perfeito demais", um pouco como as naves espaciais usadas por Doctor Who, eles queriam uma máquina do tempo que parecesse ter sido construída na garagem do "Doc Brown".


Já com Ron Cobb foi decidido que utilizariam componentes que podiam ser adquiridos em qualquer loja de electrónica para dar esse look menos sofisticado. Cobb foi também responsável pelo desenhar do reactor nuclear Mr Fusion e como toda a gente associa a energia nuclear com as grandes chaminés para o vapor de água, o DeLorean recebeu também as 2 condutas traseira que no fim do 1º filme também servem para a propulsão quando a levitar.
Para ajudar aos efeitos especiais os DeLorean eram banhado em azoto líquido para as cenas em que acabava de viajar no tempo e colocaram extintores de CO2 por debaixo para simular o escape/propulsão. Para filmar a trilogia foram usados:
- 5 DMC-12 reais funcionais
- 1 maquete de interior para as cenas filmadas do interior
- 1 maquete à escala completa em fibra de vidro para as cenas de exterior em que o automóvel levita ou como stand-in
- Para as cenas fora-da-estrada do terceiro filme montaram o quadro de um VW Carocha modificado para todo-terreno por debaixo de um Delorean e acrescentaram os pneus de faixa branca e tampões para esconder a alteração


E agora?
John Zachary DeLorean faleceu a 19 de Março 2005 com 80 anos.
Mas o DMC-12 ainda ira andar por cá muito tempo - uma empresa do Texas comprou o nome DeLorean Motor Company, todas as peças disponíveis e todos os planos de produção. Não é possível fabricar mais DMC-12 já que a maquinaria e prensas foram destruídas mas esta empresa americana continua a vender e restaurar estes icónicos automóveis.

Uma ultima nota que queria deixar - ao ler sobre John DeLorean achei curioso algo que ele disse 2 dias antes de morrer em 2005: ele temia pelo futuro da General Motors, que tinha contabilistas a mais e engenheiros a menos. Já nessa altura estava em marcha todo o debáculo das ignições defeituosas e a falência veio pouco depois...

Documentário da BBC sobre a DeLorean Motor Company
Entrevista a John DeLorean em 1988

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