Novo MINI - história com rodas

Há já algum tempo que não dedicava um artigo à historia de um determinado automóvel - apesar de ser apenas uma máquina alguns têm histórias extremamente interessantes e é difícil fazer melhor que a história do "novo Mini".
Todos os automóveis chegam a um certo ponto que tem de ser substituídos, mas substituir um icone como o Mini ou o Porsche 911 é talvez o mais difícil de todos. E no caso do Mini foi uma verdadeira historia de "faca e alguidar" digna de uma telenovela portuguesa: temos um casamento disfuncional, ódios, receios e discussões, mentira e traição. Curioso? 

Preludio - Qual "Mini original"?
Pode parecer estranho mas encontro cada vez mais pessoas que apenas conhecem o actual e moderno Mini da BMW como "o único Mini" que existiu - sim, o primeiro Mini data de 1959. Curiosamente o Mini começou com um acto de guerra - a invasão do canal do Suez que levou ao embargo petrolífero. Face ao disparar do preço do petróleo a British Leyland Motor Corporation decidiu criar um automóvel realmente pequeno e económico. A British Leyland queria apenas um automóvel com 4 rodas que fosse acessível e económico - infelizmente colocaram à frente do projecto Alec Issigonis que tinha outra ideia em mente. 

Em poucas palavras uma luta feroz por cada milímetro: a escolha de tracção dianteira, rodas pequenas em cada canto do automóvel para poupar espaço e o motor transversal com a caixa de velocidades integrada no mesmo espaço. Foi um sucesso instantâneo.

Um icone com 4 rodas tinha nascido (e uma das primeiras entradas no nosso artigo "Os automoveis mais importantes de sempre"), mas como em todos os novos automoveis é tambem definida uma data para que seja substituido - e no caso do Mini seria substituido algures no inicio dos anos 70, mas como sabemos foi fabricado e vendido até aos anos 90. Mas o que a maioria de nós não sabe é que houveram várias tentativas de o substituir - eis algumas, um deles até aparece no video acima:

1968 Projecto 9X ou "mini-Mini": era 23 centimetros mais curto que o Mini original mas mesmo assim capaz de transportar 4 passageiros e bagagens. Foi considerado caro demais, mas adiantou muitas soluções que mais tarde vieram no Renault 5 e Fiat 127.

1974 Innocenti Mini: a Innocenti fabricava sobre licensa modelos da Austin (incluindo o Mini). Em 1974 apresentaram o Innocenti Mini, mecanicamente identico ao Mini, mas o exterior foi redesenhado pela Bertone entre outras. Foi considerado caro demais para ser produzido em Inglaterra.

1977 Projecto ADO88: a minha esposa teve um Austin Mini Metro que curiosamente nasceu de um projeto para substituir o Mini. Ninguem gostava muito dele, mas como a Brithish Leyland estava num grande aperto financeiro acabaram por o colocar no mercado.

E assim, o "Mini original" continuou à venda, mas com os anos 90 começou a contagem final - o motor era incapaz de cumprir os limites de emissões e ruido, o chassis não passaria nos testes do EuroNCAP e a produção quase artesanal do Mini tornava-se cada vez mais dispendiosa.


Tique-taque... 
Em 1993 chega então o momento - Gordon Sked pediu propostas para substituir o Mini e o Metro (na altura já redesenhado como o Rover 100) por um modelo único. Foi dada liberdade total aos designers e propostas começaram a aparecer - a mais apreciada foi o projecto Minki de David Saddington e David Woodhouse: um citadino de 3 lugares com o mesmo arranjo do McLaren F1. A Rover chegou a fazer uma mula de testes baseada num Mini, com suspensão Hydragas e o motor 3 cilindros de um K-car japonês mas infelizmente o projecto foi suspenso porque a British Aerospace (proprietária da Rover) vendeu a Rover à BMW - o que fariam os alemães? 


Era BMW arranca
O CEO da BMW Bernd Pischetsrieder sabia o potencial do Mini, daí que a primeira coisa que fez ao chegar à Rover foi assegurar aos ingleses que o designe e engenharia da Rover e Land Rover ficaria quase todo sob controlo da Rover. Deu apoio financeiro e institucional para o desenvolvimento do novo Mini, que recebeu o nome de projeto R50. Algo que não durou muito tempo porque no fim de 1994 os designers da BMW começaram a preparar as suas próprias propostas para o novo Mini - infelizmente eram incompativeis. 

Os ingleses queriam acima de tudo algo revolucionário no espírito do Mini de Issigonis e estudavam um Mini de 4 lugares com apenas 3 metros de comprimento com motor serie K, sub-estruturas e suspensão Hydragas- a BMW (e um certo Chris Bangle e o responsável pelo desenvolvimento de produtos da BMW Wolfgang Reitzle) não queria que o novo Mini fosse uma continuação mas sim um novo "Mini Cooper" com suspensões McPherson à frente, eixo-Z atrás e do modelo original apenas o nome. 

Cada equipa foi desenvolvendo a sua ideia sem que ninguém abri-se mão - alguém da direcção teria que se levantar e escolher qual deles seguia em frente e qual iria para o lixo. O palco para esse "final" foi o Heritage Motor Centre onde Rover e BMW levaram as suas propostas à escala real. 

A Rover eram designadas de "Spiritual" já que seguiam a inspiração do Mini original e foram apresentadas com 2 dimensões.


Do que a BMW levou pouco se sabe - foram várias propostas mas apenas se conhece o concept ACV 30 desenhado por Frank Stephenson: um desportivo com alguns detalhes retro nada relacionado com o Mini original. 

A ultima palavra seria de Pischetsrieder, Reitzle e da direcção da Rover - e a escolha foi para o concept apresentado por Stephenson. O concenso foi que o Mini deveria ser um automóvel convencional pequeno com um espírito desportivo retro. Gostaram muito da proposta da Rover, mas a BMW achou-o "avançado" demais e o que a Rover precisava era algo simples e rápido de colocar em produção. 

O responsável do design da Rover que definiu que o britânico Saddington seria o chefe de design do novo Mini e que estaria sobre alçada de Stephenson na Alemanha ambos com a tarefa de transformar o concept de Stephenson em algo "habitável" e que poderia ser produzido em série.



Alemães e ingleses a trabalhar juntos...pois! 
Ao fim de alguns meses Saddington e Stephenson conseguiram passar do concept a algo mais pratico, mas mantinha-se a incerteza sobre o desenvolvimento do novo Mini, cuja gestão e engenharia estava basicamente a ser feita pelos alemães, deixando os ingleses (os escolhidos inicialmente) de fora - algo que estava a criar muitos atritos nos bastidores. Mas numa manhã de Maio de 1996 os alemães decidiram entregar todo o projeto R50 a Chris Lee da Rover. 

Mas foi mais uma birra que passagem de testemunho - basicamente atiraram tudo para cima da Rover e eles que se desenrascassem. Chris Lee disse aos alemães que precisava de 6 semanas para montar a sua equipa, mas os alemães entregaram tudo em pedaços (a unica coisa que foi entregue já completa foi a plataforma BMW com o tipo de suspensões a usar) e viraram costas. A Rover teve que descobrir sozinha o que foi feito e como foi feito.

2 factores são importantes sublinhar que torna o desenvolver deste Mini único: primeiro tal como o Mini original, que foi muito caro de desenvolver e fabricar porque era completamente diferente do que era produzido sem possibilidade de economias de escala e exigia um processo de fabrico específico. Segundo, este Mini foi desenhado de fora para dentro, ou seja, quando ficaram com o designe e medidas não havia qualquer ideia do que iam colocar debaixo do metal ou como o fazer. 

Quando a Rover pegou no motor K este não cabia debaixo do capot - os ingleses queixaram-se que os alemães não os ouviram e os alemães culparam o motor ingles. A solução foi mais uma facada nas costas da Rover: ao invés de trabalhar com a Rover para resolver o problema a BMW fez uma parceria com a Chrysler para desenvolver um motor para o Mini. 

Inicialmente esta prevista uma caixa de velocidades Getrag, mas não havia espaço para ela. A Rover decidiu, à rebelia, usar antes uma das suas R65 que já usava nos seus automóveis - era mais pequena, mais barata e com menos vibrações. Mesmo assim a BMW ainda insistiu na Getrag e foi preciso que a Rover apresenta-se todo o género de ensaios e provas para os alemães enfim desistirem do tema. 

Depois foi a direcção - o projecto original incluía uma direcção assistida electricamente, mas que não dava qualquer sensação ao volante. A solução inicial seria de actualizar o sistema mas a Rover simplesmente adaptou o sistema hidráulico do Rover 25. Resolveu o problema da falta de comunicação da direcção, mas infelizmente criou outro problema: não cabia debaixo do capot. Nada cabia. 

Há um conjunto de distâncias a manter entre os componentes e não cumpriram nenhum - tudo teve que ser desenhado de raiz e de propósito para o Mini Cooper. O preço elevado era em parte do factor Premium mas também, tal como o Mini original, dispendioso no desenvolvimento e fabricar. 

Resumindo ao contrário do que os alemães dizem foram os ingleses que desenvolveram o novo Mini: eles podem ter escolhido o conceito mas o novo Mini não incluia nenhum componente da BMW e foi tudo desenvolvido e construído pela Rover.

E qual foi a recompensa por todo esse trabalho? A BMW anuncia que iria vender os novos Mini na rede BMW e não nos da Rover que já comercializavam os Rover, MG e Land-Rover. Comercialmente faz sentido - ao vender pela BMW assegurava-se o pedigree Premium permitindo uma maior margem de lucro e a rede mundial da BMW era também muito mais extensa. Mas não deixa de ser dificil de engolir, especialmente porque a BMW nunca deu crédito aos ingleses. 

O resto já sabemos: em 2000 a BMW fartou-se e desfaz-se da Rover: ficou com a Mini, a Land-Rover e Jaguar foram para a Ford e a Rover foi deixada pendurada. E isso será tema para outro artigo. 

Fontes - Motoring File, Autocar, Mini Forum, Wikipedia e Youtube

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