Novo Renault Clio Sport Tourer 0.9 TCe - ensaio

Este ensaio foi uma surpresa - recebi uma chamada a perguntar se estaria interessado em testar o novo Renault Clio Sport Tourer. Infelizmente a disponibilidade tem sido pouca mas aí fazem a proposta de me emprestarem o Clio Sport Tourer durante uma semana para poder ensaiar de forma completa. Como dizer que não?!
 
Aproveitando esta possibilidade resolvi utilizá-la numa longa semana com muita estrada - 2.120 quilómetros em 7 dias para poder ter uma boa ideia do que esta Clio Sport Tourer é capaz.
 
Prefácio
Antes tenho que confessar que sempre apreciei o Clio, principalmente a imagem colorida, conforto e dinamismo. Particularmente a versão Bacara que era como vestir uma bela luva de couro e o 16S da segunda geração. Mas a verdade é que com o tempo foi ficando mais "pesado" e grande demais. A ultima geração tinha para mim um dos chassis mais bem equilibrado do segmento - conseguia ser confortável e ao mesmo tempo muito eficaz quando fazíamos mais pressão com o pé direito, mas estava muito "pesadão". Para esta geração a Renault fez uma escolha inteligente - ao invés de fazer um carro completamente novo, pegou na plataforma do anterior Clio, deu-lhe melhorias e actualizações necessárias, novas motorizações (especialmente este 3 cilindros 0.9 litros TCe que conduzi) e novas tecnologias. Além das óbvias economias no desenvolvimento que se traduzem num preço mais acessível ao cliente, é mais fácil de viabilizar - afinal, porque andar sempre a reinventar a roda? Mas a pergunta é - será que a Renault conseguiu revitalizar o Clio, torná-lo num produto fresco e novo, e recuperar algum prazer de condução que tantas marcas fazem agora ponto de honra? Sim, estou a olhar para ti Peugeot 208.
 
Primeiro contacto
Tenho que dizer que o primeiro contacto foi muito agradável - na anterior Clio carrinha parecia que quem desenhou a secção traseira nunca viu o resto do Clio porque não havia harmonia, como que se a secção da roda traseira até à tampa da mala viesse de outro carro completamente diferente. Esta Clio Sport Tourer não - é muito mais audaz, trabalhado e "leve" que o anterior Clio 3.

 
Perdeu o ar familiar, utilitário para uma linha tipo shooting brake com a pequena superfície vidrada. O preto talvez não seja a melhor cor (muito "carregado"), mas em branco ou naquele vermelho que vemos nos anúncios... Tentando lembrar-me de todos as carrinhas deste segmente, acho que esta é a mais bonita. Gostaria de o comparar ao Peugeot 208 mas a Peugeot fez antes do 2008 e não é um comparativo assim tão válido.

 
Relativamente à anterior geração este novo Clio é apenas ligeiramente mais comprido e mais baixo, mas com aquele para-brisas mais inclinado e a linha vidrada a reduzir à medida que chegamos à traseira dá decididamente uma linha mais dinâmica.
 
E tal como na versão anterior, relativamente ao Clio de 5 portas "normal" a única diferença esta na secção do eixo traseiro para trás - tudo o resto é igual, por dentro e por fora.
 
Interior
Passando ao interior rapidamente apercebemos a boa capacidade interior, mesmo para os grande gabaritos como o meu - o habitáculo é mais que suficiente para 4 adultos mas esqueça 5: o banco traseiro é confortável mas a largura disponível só permite 2 adultos.
 
A mala é boa (segundo o catalogo 290/370dm3) mas graças ao banco do passageiro dobrável (opcional) dá para transportar objectos compridos - óptimo para quem gosta de compras no IKEA.

 
Sentado ao volante a posição de condução é agradável e melhor que no Clio anterior, temos à nossa frente o grande conta-quilómetros digital e os restantes indicadores facilitando a leitura - apenas o computador de bordo podia ter um display ligeiramente maior.
 
A visão para trás é melhor que no Clio normal. A ergonomia dos vários comandos é boa tirando o botão do cruise control que está ao lado do travão de mão quando os restantes botões (regulação dos faróis, start-stop) estão do lado esquerdo e a baixo no tablier.
 
Temos os habituais espaços para colocar objectos um pouco por todo o lado mas nada de extraordinário. O interior é "bastante preto" mas esta é a base sendo possível através dos opcionais adicionar pormenores coloridos, mas a base até é atraente - tablier preto com assentos de tecido preto mas aqui e acolá surgem detalhes de preto lacado e cromado que dão um ar moderno, sofisticado.



 
A única nota negativa é que a cobertura superior do tablier reflecte no para-brisas e a qualidade dos materiais - é aceitável mas o toque dos plásticos é básico e duro.
 
Uma vez no interior rapidamente somos atraídos pelo grande ecrã do Medianav que reina no tablier - sinceramente, a primeira reacção é ver se esta mesmo fixado ao tablier.
 
É relativamente fácil de utilizar, e apetece levá-lo para casa. Temos GPS, rádio, leitor de ficheiros multimédia e acesso a várias outras funções - menos ao leitor de CD's que não temos. Mas a verdade é que apesar de funcionar bastante bem há alguns detalhes que sinceramente eram evitáveis:
- os gráficos usados no GPS parecem dos anos 90, numa era de smartphones, o look deste sistema ainda parece um pouco PDA.
- não auto-cancela (se esta num determinado menu e depois pára de usar o sistema ele fica sempre no mesmo ecrã)
- a voz sintética portuguesa parece um atendedor automático
- o volume o GPS está ligado ao do rádio e não se consegue alterar/cancelar separadamente
- o sistema já vem com todas as línguas e mais algumas pré-configuradas e após deixar os meus filhos por 5 minutos sozinhos dentro do carro todas as funções e instruções (todas mesmo) estavam em árabe. A sério.
- continha informação "curiosa": aparentemente o limite de alcolémia em Portugal é meia bebida por milha!

 
Condução
Se procura um Clio tem várias escolhas de motores, com a mais popular sem duvida o 1.5 litros diesel, mas o que tenho debaixo do capot é o novo 3 cilindros turbo de 0.9 litros TCe. E ao fim de uma semana posso dizer que é um bom motor, apesar de ter o caracteristico ronronar dos motores de 3 cilindros é bastante silencioso, refinado e com boa resposta. É bastante linear e só nos apercebemos que temos um turbo a baixa rotação quando o turbo entra e que tem uma alteração repentina de atitude.
 
Relativamente a outros motores 3 cilindros que já conduzi, este surpreendeu por quase não ter aquele ruído e vibração exagerada que se sente no volante e pedais. Apesar da pequena capacidade do motor consegue mexer-se bem nas nacionais ou calmamente na auto-estrada. A caixa de velocidades é precisa e agradável, e a travagem eficaz.
 
Acima de tudo a Renault fez um belo trabalho no acerto do chassis - o Renault Clio sempre teve um bom comportamento, mas esta nova geração consegue ir mais longe seja a velocidades mais elevadas ao prazer ao volante nas estradas mais "curvantes". Conseguiu-se dar muito bem independemtemente do ritmo e tipo de estrada que percorri - muito polivalente. A velocidades mais elevadas há pouco movimento da carroçaria, absorve bem as irregularidades e o amortecimento é simplesmente imperturbavel.
 
Relativamente ao Clio 5 portas a suspensão do Sport Tourer é 10% mais dura e usa barras estabilizadores mais grossas e apesar de se sentir algumas trepidações a baixa velocidade tem um óptimo equilíbrio. O  eixo dianteiro agarra bem, a direcção é agradável e mais comunicativa que na geração anterior (mas ainda com algo para fazer no acerto) e e o chassis é muito eficaz seja em piso seco ou molhado.
 
E claro que fica a questão dos consumos...e posso dizer que até foram uma surpresa agradável. Recapitulando - armado com um motor de 3 cilindros turbo de 0,9 litros com 90 cavalos e 135Nm de binário, depois de 7 dias e 1.120 quilómetros percorridos com muita auto-estrada sempre perto dos 120 km\h e alguma Nacional e cidade para boa medida, a média geral de consumos foi de 6,7 litros/100km. Devo dizer que nunca usei o ar condicionado (estava fresco) e tinha sempre outra pessoa no carro ou carga na mala. Nada mal.
 
 
Conclusão
O novo Renault Clio é um grande salto relativamente à geração anterior - mais estilo, personalidade, e graças à mala desta versão Sport Tourer, mais utilizável mas sempre muito dinâmico. O Clio Sport Tourer esta muito bem conseguido estilisticamente, elegante mas acima de tudo muito mais polivalente, confortável e habitável. Uma boa alternativa para as famílias mais pequenas (ou com orçamento mais pequeno) ou alérgicos ao ar maternal das mono-volumes (onde me incluo).
 
Apesar da pequena dimensão o 3 cilindros TCe tem a força necessária quando é necessário com consumos relativamente bons - definitivamente uma boa opção para quem faz muitos quilómetros dentro da cidade e quer evitar o problema dos filtros de partículas em cidade. Ligeiramente ronronante na aceleração o 3 cilindros é muito discreto a velocidades mais elevadas e permite explorar o óptimo chassis confortável e equilibrado graças ao bom trabalho no acerto das suspensões. Mas quem precisar de carregar mais peso, procure melhores performances ou simplesmente faça mais auto-estrada provavelmente irá preferir o 1,5 DCi de 90 cavalos.
 
Sim, claramente os contabilistas andaram a fazer das suas no interior (plásticos duros por todo o lado) e alguns detalhes do Medianav podiam ser melhorados (por exemplo, o meu velho Nokia ligou logo por Blutooth mas recusou o meu mais recente Samsung Galaxy). Mas se conseguir olhar por cima destes detalhes, ou gastar um pouco mais nos extras de personalização verá que tem nas mãos um bom automóvel.
 
Se esta a pensar em comprar um há 2 equipamentos que recomendo - devido à forma do capot é difícil perceber onde acaba o para-choques e a pequena superfície vidrada atrás não ajuda o trabalho do estacionamento, dai que os radares de estacionamento são fundamentais. A outra recomendação é o banco do passageiro dianteiro rebativel que permite carregar objectos mais compridos - algo extremamente útil.

Pontos positivos
- Design exterior
- Bom comportamento em todos os pisos
- Conforto
- Interior espaçoso
- Consumos interessantes

Pontos negativos
- Plásticos no interior
- Ergonomia de comandos
- Medianav precisa de refinamento
- Bancos traseiros podiam rebater melhor
- Entrada em cena do turbo um pouco violenta

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