O que esconde a guerra ao automovel

Tive hipótese de durante as ultimas férias do verão ter travado conhecimento com um fã dos automóveis que tem um emprego curioso - trabalha no Parlamento Europeu. Yup, um político. E conversa puxa conversa, acabamos a falar da actual guerra que é feita ao automóvel um pouco por todo o mundo. Não é necessário ser fã do automóvel para nos apercebermos dela, ela decorre nos noticiários, internet, instituições, um pouco por todo o lado. E eis que mostrando que nem todos os políticos são crapulas egoístas mentirosos deu-me uma pequena explicação aos bastidores da guerra ao automóvel esconde - e curiosamente tem pouco a haver com a protecção do ambiente.

Mas ao invés de simplesmente relatar o que me contou, resolvi fazer algo de diferente (vê-se, já que demorei quase 6 meses a escrever isto): fui a várias reuniões camarárias, falei com arquitectos, arquitectos paisagistas, ecologistas, advogados e outros intervenientes para ter uma visão geral e realista do que se passa nos bastidores. Yup, um quase-jornalista. Comecemos então pelo início...

Apesar da guerra ao automóvel ter começado genuinamente pelos ecologistas (não gostam do automóvel porque poluem e potenciam o "urban sprawl"), a verdade é que actualmente são "grupos de interesse" (leia-se empresas/negócios/governos) que tomaram conta e aceleraram a guerra ao automóvel. O ponto comum entre estes vários grupos de interesse é que todos têm a ganhar (ou pensam que podem vir a ter ganhos financeiros) com o congestionamento das estradas e poluição. São estas empresas e até governos que financiam ou ajudam os ecologistas ou grupos de pressão profissionais para que estes façam a guerra ao automóvel passando assim a imagem que é uma causa justa e fundamentada.

No meio destes 2 grandes grupos estão os técnicos de planeamento urbanístico, maioria pessoal ecologista e licenciado - não que seja algo de mau, mas a verdade é que o planeamento urbanístico não é proriamente uma ciência, (nas palavras de um celebre urbanista português Gonçalo Ribeiro Telles) é mais uma arte, mas infelizmente é também uma forma para dar a certos grupos de interesse poder não merecido sobre proprietários de terrenos\edificios e os cidadões em geral.

O problema fulcral com o urbanismo actual é que ensinam que o comportamento humano pode ser moldado pelo design e organização das cidades. Os planeadores urbanísticos acreditam serem capazes de inverter o processo de esvaziamento das cidades através de regulamentação de utilização de propriedade - basicamente, se conseguirem forçar o aumento da densidade populacional nas cidades (meter mais pessoas por metro quadrado), as pessoas vão usar mais os transportes públicos ou ir a pé/bicicleta - o automóvel não será viável ou necessário.

Mas a historia conta-nos algo de diferente - quando as pessoas caminhavam ou andavam a cavalo viviam em cidades densamente povoadas, quando os eléctricos surgiram as pessoas começaram a dispersar nascendo os "subúrbios" e com a massificação do automóvel as pessoas abandonaram as cidades na procura de melhor qualidade de vida. E não voltaram - daí as grandes cidades serem verdadeiras cidades fantasma durante a noite.

Recorrendo a historia actual, só quando se atingir enormes densidades populacionais (tipo Hong Kong ou Nova York) é que se vai conseguir afectar a utilização do automóvel - e nem sempre funciona, basta ver a cidade de Los Angeles é das mais densamente povoadas dos EUA e a percentagem de pessoas que caminha ou usa transportes públicos é mínima.

Para terem uma ideia, estamos a falar de colocar toda a população portuguesa a viver na zona de Lisboa e Margem Sul.

E se acha que o cidadão comum pode influenciar o processo, esqueçam. Alguém já foi a reuniões camarárias em que se discute a organização ou projectos urbanísticos? É que apesar de se chamar discussão pública, a verdade é que a reunião está organizada e é conduzida por forma a assegurar que não há desvios do objectivo.

Numa das reuniões que participei, vi pessoas a tentarem defender o seu ponto de vista mas a terem cortada a palavra para que alguém entrasse a defender o projecto. Numa das reuniões um homem viu a rua em que tinha a sua garagem ser fechada ao trânsito para redução de poluição no centro da cidade e para que fosse criada uma zona pedonal (ou seja para que fossem montadas esplanadas) e por mais tentativas que fizesse para se defender era constantemente cortado por proprietários dos cafés, restaurantes e lojistas (que curiosamente estavam lá em grande número) a defender a ideia de um dos autarcas. E o homem perdeu...

Mas além da procura do poder, há sempre o dinheiro - há já algum tempo atrás a tabaqueira Philip Morris fez um estudo em que provou "por A mais B" que o tabaco era "positivo" para os governos já que era uma grande fonte de impostos e porque quem fumar não vive o suficiente para reclamar a pensão que fica para o governo. O mesmo se aplica ao automóvel - é uma verdadeira galinha dos ovos de ouro para os governos e muitos querem controlar para onde vai esse dinheiro - de preferência para o seu bolso.

Conhecemos um exemplo - os comboios de alta velocidade que estão a ser impingidos a muitos países e que se provou que não iria haver benefícios deles - veja-se o TGV em Portugal, não conseguiria ser pago apenas pelos bilhetes (afinal nem o comboio normal consegue manter-se apenas com o custo dos bilhetes) e mesmo assim querem avançar.

Aqui entram um novo tipo de grupos de pressão que estão a surgir nos EUA e Europa cujo único objectivo é forçar politicas contra o automóvel. Estes grupos estão continuamente a gerar campanhas de pressão direccionadas aos políticos eleitos como profissão. Trabalham para as empresas e associações que beneficiam da congestão de transito e de leis anti-automóvel.

Entre os "clientes" temos as Câmaras Municipais e proprietários de lotes no interior das cidades que sofrem com a saída de empresas para os subúrbios - se os subúrbios forem também um inferno automóvel muitos dos empregos/empresas vão regressar ao centro das cidades aumentado o valor das suas propriedades. Temos ainda a industria dos comboios/metropolitanos - a Siemens que gasta milhões anualmente em apoios a campanhas políticas e associações ecológicas e curiosamente foi recentemente condenada por suborno a oficiais de governos europeus e nos EUA para ganharem concursos de metro, comboios de alta-velocidade e outros...

É importante dizer que sou a favor da protecção do ambiente e que o automóvel também tem a sua parte, mas creio que é importante divulgar que muitas acções/movimentos em curso não passam de campanhas de manipulação para atingir objectivos em nada relacionados com o bem ambiental. Esta nas mãos de cada um de nós fazer a sua parte na preservação do ambiente mas citando Edmund Burk: "para que o mal vencer basta que as pessoas de bem nada façam" - o problema é que o "mal" aprendeu a vestir a pele do cordeiro.

2 comentários:

  • Herege says:
    29 de abril de 2012 às 05:12

    Ninguem dá nada de borla, e na verdade tudo isto é para safar interesses que nada são aqueles que correm nos pensamentos de muito boa gente. Essa mesma boa gente é lhe feita uma lavagem ao cérebro brutal, a tentar convencer-nos do contrário, comunicação social e politicos em geral. Depois existem os grupinhos parasitas com até ficam contentes de só comerem um chouriço quando já lhes foi roubado o porco.

    "muitas acções/movimentos em curso não passam de campanhas de manipulação para atingir objectivos em nada relacionados com o bem ambiental." só quem anda distraido é que não repara nestas coisas, e muita gente anda.

  • Turbo-lento says:
    2 de maio de 2012 às 00:18

    Também há grupos de pressão ambiental com boas intensões e com bom senso - houve um inclusive que me ajudou a estudar este tema e apontou várias associações e empresas que recorrem a esta tatica para conseguirem o que querem.