[update]Escândalo Kobe Steel - explicação

É possível que já tenha ouvido falar no escândalo que envolve a japonesa Kobe Steel que terá falsificado as especificações de materiais que produziu. É fácil pensar que é algo que não nos afectará mas é exactamente o oposto - se os airbags da Takata eram maus, este novo escândalo é bastante bastante pior. E não, não estou a ser dramático - segundo o site desta empresa fabricam metade das molas de válvulas no interior dos motores de automóveis de todo o mundo, metade dos discos de alumínio para discos rígidos do mundo e 40% das cambotas usadas em motores navais do mundo. 
Não acaba aí - é também um dos maiores produtores mundiais de contentores de armazenamento de residos nucleares de centrais eléctricas nucleares e o maior fornecedor mundial de subestruturas de chumbo usadas na construção de chips informáticos!

Quando se trata de um "componente" defeituoso é (relativamente) fácil de substituir - os airbags da Takata por exemplo. O problema é que podemos estar a falar de materiais ou componentes dentro de elementos mais complexos, como partes do chassis de um automóvel. Se me permitirem a analogia culinária, depois de fazerem um bolo descobrirem que uma das farinhas estava estragada não conseguem retirar essa parte. Neste caso, temos a Kobe Steel (um grande fornecedor de componentes materiais em aço, cobre e alumínio para a industria automóvel e aeroespacial por todo o mundo) a admitir que falsificou relatórios de inspecções, certificações e controlo de qualidade dos seus produtos - é que temos desde componentes que seguram as rodas dos famosos comboios bala no Japão até cabos de aço usados em motores e pneus de automóveis!

Mas fica pior - segundo um relatório da Nikkei que cita fonte interna anonima da Reuters que a Kobe Steel não confirma porque "ainda está a investigar", esta falsificação de dados já decorre há mais de 10 anos! Ou seja, podemos estar ainda a ver a proverbial ponta do proverbial iceberg. O relatório da a Nikkei vai mais longe - a falsificação decorre há varias décadas com conhecimento dos gestores da unidade de fabricação e controlo de qualidade.

A qualidade do "made in Japan" esta definitivamente em crise - primeiro a Takata e agora a Kobe Steel. É que não são uns "funcionários fora de controlo", isto é parte da cultura da empresa. A única dúvida que para mim fica no ar é se foi uma questão de tentar ganhar mais dinheiro ou se a empresa era simplesmente incapaz de produzir segundo os cadernos de encargos dos clientes.

Neste momento temos os clientes a tentar determinar se receberam componentes falsificados e onde estão eles - é mesmo não sendo clientes diretos da Kobe Steel, fornecedores diretos podem usar material da Kobe. A lista das empresas afetadas é...abrangente (525 empresas para já afetadas) e preocupante. Ainda não está determinada até onde vai a falsificação e até agora não foram detetados problemas de segurança ligados a estes componentes. Abaixo estão algumas das empresas afetadas, que receberam componentes falsamente certificados ou estão em processo de verificação se receberam tais componentes:
- Boeing: recebeu produtos da Kobe Steel falsamente certificados;
- Airbus: não compra diretamente à Kobe Steel mas está em processo de investigar se os seus fornecedores o fazem;
- Ford: o Mondeo fabricado na China usa elementos em alumínio fornecido pela Kobe Steel, está em processo de verificação;
- General Motors: está em processo de verificação;
- Toyota: elementos fornecidos pela Kobe Steel foram usados em portas e capots automóveis;
- Rolls Royce: recebeu produtos afetados mas não foram usados;
- Korean Air: terá fabricado componentes apartir de materiais da Kobe Steel depois fornecidos à Boeing, está em processo de verificação;
- Hyundai: os Ioniq e Niro têm painéis produzidos pela Kobe Steel;
- Nissan: portas e capots estão afetados;
- Honda: em automóveis portas e capots estão afetados e componentes do HondaJet;
- Subaru: veículos, aviões e equipamento de defesa usaram produtos afetados da Kobe Steel;
- Suzuki: produtos afetados da Kobe Steel foram usados em motas;
- Mazda: produtos afetados da Kobe Steel foram usados;
- Mitsubishi Motors: produtos afetados da Kobe Steel foram usados;
- Mitsubishi Heavy: produtos da Kobe Steel foram usados no seu jacto regional, foguetes (incluindo o H-2A) e equipamento de defesa;
- IHI: produtos afetados foram usados nos seus motores a jacto fornecidos à Boeing e a várias empresas da industria de defesa e aeroespacial japonesa;
- Hitachi: produtos de aluminio afetados foram usados em comboios no Japão e Reino Unido, estando em processo de substituir elementos dos comboios rápidos japoneses;
- JR Tokai, JR West, JR East: produtos afetados usados nos comboios rápidos;
- Tokyo Metro Co Ltd e Hankyu Hanshin Holdings Inc: outros operadores de comboios afetados; 
- Kawasaki Heavy: materiais afetados foram utilizados em componentes de aviões e motores, a investigar se a componentes para comboisos foram afetados;
- Mitsubishi Electric: cobre afetado foram usados em equipamentos de ar condicionado produzidos no Japão;
- TEPCO: a Tokyo Electric Power Holdings que operava a acidentada central nuclear de Fukushima Daiichi diz que recebeu tubos da Kobe Steel não corretamente inspecionados numa outra central nuclear (Fukushima Daini);
- Chugoku Electric Power Co Inc, Hokuriku Eletric Power Co, Japan Nuclear Fuel Ltd, Kansai Electric Power Co Inc e Kyushu Electric Power Co Inc: outros fornecedores de electricidade afetados;
- Volkswagen: a Kobe Steel não é um fornecedor direto mas está a investigar possível subcontratação;
- Panasonic: produtos afetados foram usados em discos Blu-ray, além de tubos de cobre e liga de cobre;
- Daihatsu Motor Co: produtos afetados da Kobe Steel foram usados;
- Komatsu: equipamento de defesa usaram produtos afetados da Kobe Steel;
- Shimadzu Corp: caixa de velocidades e bombas de vácuo para aviões;
- Bosch: produtos afetados da Kobe Steel foram usados;

O Nikkei disse que as seguintes empresas (agrupadas por área) receberam produtos da Kobe Steel com especificações falsas, a Kobe Steel confirmou a Reuters que estas receberam componentes seus mas não confirmou se as especificações estariam falsificadas.
- Componentes automóveis: Denso Corp (radiadores), Yamaha Motor, Sumitomo Wiring Systems, Takata Corp, Fujitsu Ltd, Yazaki Corp;
- Tesla Inc, Renault SA, Daimler AG, Valeo SA e Volvo AB;
- Motores de navios: Shimadzu Corp, Mitsui Engineering e Shipbuilding Co Ltd, NEC Corp, Yokohama Rubber Co Ltd, Komatsu Ltd;
- General Electric;
- Equipamento de frio: Daikin Industries Ltd, Toshiba Corp, Horiba Ltd, Nidec Corp;
- Intel Corp;

No dia a dia trabalho na área de segurança e controlo de qualidade alimentar e posso dizer que "produto com defeito" é algo inevitável em qualquer industria . Mas as empresas tomam medidas para minimizar os problemas e são feitos múltiplos controlos para evitar que produto defeituoso seja enviado ao cliente. Que raio aconteceu aqui ainda é cedo para determinar - fiquem atentos.


update 08-11-2017: novos dados sobre a Kobe Steel para dar uma ideia de como este escandalo de uma forma ou outra afeta todos, novas empresas foram adicionadas a lista de empresas afetadas com base na atualização da Reuters.

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