DieselGate - ponto de situação 18-01-2017

Estão a ver aquele momento em todas as telenovelas quanto se descobre que afinal os casal apaixonado de famílias rivais afinal são irmãos? É este tipo de actualização - mas ao contrário das telenovelas, aqui é sempre sem tretas, conservantes ou adoçantes acrescentados.

EPA acusa a Fiat Chrysler de falsear emissões diesel
A agência de protecção ambiental americana (EPA) acusou a Fiat Chrysler Automobiles (FCA) de usar sofware para falsear as emissões diesel tal como a Volkswagen. Se isto soa familiar é porque não é a primeira vez que a FCA é acusada de falsear as emissões - o governo alemão acusou e diz ter provas que a Fiat também estava a falsear as emissões, algo que até agora teve poucas repercussões na Europa. Estranhamente temos novamente os americanos a descobrir algo que os europeus estão a fazer...

Segundo a EPA e a CARB (California Air Resources Board), a Fiat Chrysler usou software para falsear emissões em 104.000 SUVs Jeep Grand Cherokee e pick-ups Ram 1500 vendidos nos EUA desde 2014 com o V6 de 3 litros diesel. Este "dispositivo/software auxiliar de controlo de emissões" não foi declarado e permitiria gerar níveis de óxidos de azoto acima dos valores legais. Os veículos referidos tinham emissões de NOx dispares quando testadas em laboratório e na estrada dependendo das condições de operação - como exemplo a EPA refere que a velocidades mais elevadas o controlo de emissões era substancialmente reduzido. Ou seja, basicamente o mesmo que a Volkswagen foi apanhada a fazer.

Para já a EPA entregou um aviso de violação à FCA e espera provas de que estes sistemas são legais. A FCA disse que está desapontada com as asserções da EPA e que irá provar que os seus sistemas de controlo de emissões "são justificados" logo não significa falseamento. Infelizmente par a FCA a EPA e CARB dizem que o dispositivo "não declarado" ou seja a Fiat não o identificou na homologação o que é ilegal nos EUA - "Failing to disclose software that affects emissions in a vehicle’s engine is a serious violation of the law". Para ser exacto a EPA diz que encontrou pelo menos 8 dispositivos auxiliares de controlo de emissões não declarados.

Agora faz sentido o facto que a EPA não homologou nenhum modelo diesel da VW e Fiat para 2017. Como consequência as ações da Fiat Chrysler deram um tombo, caindo 16% antes das transacções serem suspensas.


Já a Comissão Europeia aproveitou a deixa para pedir à Itália que forneça provas que contrariem a acusação da Alemanha que a Fiat usa software para falsear as emissões nos modelos diesel dos Fiat 500X, Fiat Doblo e Jeep Renegade. A autoridade automóvel alemã KBA testou vários modelos de vários fabricantes a seguir ao dieselgate ter sido tornado público e diz ter encontrado nos modelos da Fiat um dispositivo que desliga o controlo de emissões 22 minutos depois do inicio de teste - quando o teste de emissões dura exatamente 20 minutos. Segundo a Reuters que cita uma fonte dentro da comissão europeia, a comissão terá alugado um Fiat 500X que depois submeteu a teste e terá observado "comportamento suspeito a nível das emissões".

A Fiat Chrysler não comentou esta ultima acusação, mas no passado recente assegurou que os seus automóveis estavam conforme as regras das emissões e não tinha qualquer dispositivo proibido.
Já a Itália, sendo Itália obviamente, está a fazer um grande banzé queixando-se que a Alemanha não dá (isto citando diretamente o ministro italiano dos transportes)"ordens a uma nação soberana como a Itália"...


Volkswagen aceita acordo civil e criminal
Na quarta-feira passada a VW aceitou, para concluir a acusação criminal e civil nos EUA, pagar 4.3 mil milhões de dólares em multas civis e criminais, e dar-se como culpada de conspiração para defraudar o governo e publico americano, e obstrução de justiça. A VW terá supervisão durante os próximos 3 anos e está obrigada a colaborar com qualquer investigação. O acordo ainda tem que receber a luz verde do juiz Sean Cox que supervisiona este caso.

A acusação e admissão de culpa é interessante, mas mais interessante é que com a abertura de queixas criminais foram tornados públicos detalhes de como o grupo alemão tentou ocultar a falsificação das emissões. Vamos lá então a um resumo rápido...peguem nas pipocas!

Tudo começa em 2017, segundo a acusação o Dieselgate começou a formar-se em 2006 quando engenheiros da Volkswagen, sobre a direção de Dorenkamp e Hadler, que trabalhavam no projeto “US 07" - o primeiro motor diesel EA189 diesel 2.0 litros para o mercado dos EUA. Esta equipa terá rapidamente percebido que não havia forma de conseguir cumprir os limites de óxidos de azoto e partiram para o desenvolvimento do tal "dispositivo/código eletrónico" para fintar os testes de emissões americanos - era referida dentro da equipa por “acoustic function”, “switch logic”, “cycle beating”, ou “emissions-tight mode”.

Ainda em 2006 Dorenkamp terá (alegadamente) autorizado os seus engenheiros a instalar o "dispositivo" no projecto "US 07" com vários elementos a manifestarem preocupações com esta decisão. As desavenças continuaram em 2007 mas a 5 de Outubro de 2007 numa reunião presidida por Hadler autorizou a que o projeto "US 07" seguisse em frente com o tal código instalado. A 17 de Outubro um slide powerpoint com os termos usados para referenciar o dispositivo circulou entre a equipa com a informação de não distribuir ou falar desta informação com ninguém.

Problemas começam a vir ao de cima em 2012 quando vários automóveis nos EUA equipados com o tal 2 litros TDI começaram a avariar. Segundo a acusação os engenheiros da VW levantaram a possibilidade do veiculo entrar e ficar bloqueado em modo de teste de emissões mesmo quando em condução normal. Gottweis e Neusser foram chamados a varias reuniões com departamento de desenvolvimento de motores da VW (marca, não do grupo) onde tiveram que explicar porque é que o dispositivo estaria a causar os problemas mecânicos. Nessas reuniões terá sido explicado como o software funcionaria, mas ambos Gottweis e Neusser terão encorajado a ocultar essa informação incluindo destruir as notas da reunião.

O diselgate explodiu publicamente a Março de 2014 quando foram publicados os resultados do Center for Alternative Fuels, Engines and Emissions da West Virginia University - reagindo a estes resultados o departamento de desenvolvimento de motores criou um grupo para responder às questões dos reguladores americanos, já Neusser, Gottweis, Schmidt, Peter e os restantes elementos da equipa conspiradora teram decidido ocultar o "dispositivo" enquanto faziam de conta que colaboravam - basicamente os resultados eram devido a "irregularidades" ou "falhas anormais", tudo menos admitir a marosca.

A 18 de Agosto 2015 foi aprovado o guião a usar pelos funcionários da Volkswagen para responder às questões dos reguladores americanos, e como é sabido basicamente ocultar tudo. E tudo corria bem até que um funcionários da VW admitiu que a marca alemã tinha falseado os resultados dos testes de emissões. Aí a Volkswagen entrou em modo de limpeza geral destruindo provas - segundo a investigação o diretor do departamento de desenvolvimento de motores terá instruído um assistente que destruísse um disco rígido com emails entre ele outros supervisores.

Os procuradores americanos acusam 6 elementos da VW de desenvolverem e executarem a aplicação desta falsificação de emissões:
- Heinz-Jakob Neusser: responsável pelo desenvolvimento de motores do marca VW de 10/2011 a 06/2013 e responsável de desenvolvimento na VW de 07/2013 a 09/2015;
- Richard Dorenkamp: de 2003 a 12/2013 foi o dentro do desenvolvimento de motores o diretor do departamento responsável pelo tratamento de emissões. Particularmente de 2006 a 2013 dirigiu a equipa de engenheiros que desenvolveu o primeiro motor diesel EA189 capaz de cumprir os novos e mais exigentes limites de emissões nos EUA;
- Jens Hadler: responsável pelo desenvolvimento de motores na VW de 05/2007 a 03/2011;
- Bernd Gottweis: supervisor no grupo VW com responsabilidades de controlo de qualidade e segurança de produto entre 2007 e 10/2014;
- Jurgen Peter: desde 1990 elemento da equipa de gestão de qualidade e segurança do grupo VW, e entre Março e Julho de 2015 um dos elementos de ligação entre as autoridades reguladoras e o grupo alemão pouco antes do escândalo rebentar;
- Oliver Schmidt: entre 2012 e 02/2015 gestor do escritório de engenharia e ambiente em Auburn Hills (Michigan) que asseguraria que os produtos da VW cumpriam normas, entre Fevereiro e Setembro 2015 trabalhou na Alemanha ao lado de Neusser.

Há um senão: destas 6 pessoas 5 estão na Alemanha (o governo alemão não faz extradições para fora da Europa) e até agora apenas foi preso Oliver Schmidt porque estava de férias na Florida - depois desta detenção nenhum alto responsável da VW aceita viajar para os EUA.

Oliver Schmidt, Juergen Peter e Heinz-Jakob Neusser ainda são funcionários da VW, mas Neusser está suspenso. Já segundo a Reuters como parte do acordo a VW concordou em despedir 6 funcionários, suspender 8 e disciplinar 3 funcionários envolvidos com o dieselgate mas não foram identificados. Mas a investigação continua e os procuradores continuam a procura de mais elementos envolvidos na conspiração.

Há ainda uma ultima pepita de informação nesta acusação, que a VW aceitou - segundo o FBI Deputy Director Andrew McCabe: "now clear that Volkswagen top executives knew about this illegal activity and kept their shareholders and the public in the dark". Traduzindo - é claro que executivos de topo da VW sabiam desta atividade ilegal e mantiveram público e accionistas no escuro. Se este senhor do FBI estava apenas a referir-se aos já indiciados ou se se refere a "outras pessoas de interesse" na hierarquia da VW ainda não identificados +e uma boa pergunta e importante para os julgamentos dos grupos de investimento, todos baseados na premissa que a direção do grupo estava dentro da marosca.


E em quanto já vai a conta da Volkswagen no dieselgate?
Até agora em acordos com as autoridades ambientais e proprietários a Volkswagen já gastou 15 biliões de dólares, com este acordo criminal basicamente chegamos aos 20 mil milhões de dólares - quem segue o dieselgate deve recordar-se que no inicio a Volkswagen tinha reservado 19 biliões de dólares para lidar com os custos deste escândalo. Parece que vão precisar de encontrar mais dinheiro...


Winterkorn vai ao parlamento alemão
Sim, o ex-CEO do grupo Volkswagen Martin Winterkorn ainda anda por aqui e pelos vistos vai testemunhar num comité parlamentar que investiga se o governo alemão e reguladores tiveram qualquer papel no dieselgate ou se falharam na sua prevenção.


Mesmo assim vendas recordistas no grupo VW
Com todo o dieselgate a Volkswagen teve um ano recorde de vendas - as vendas globais do grupo VW subiram 3,8% para 10,3 milhões de unidades, relativamente ao ano anterior com as vendas na China (+12%) e Europa (+4%) a compensarem as quedas nos EUA (-2.6%) e América do Sul (-34%). Dentro do grupo, em 2016, as vendas da Skoda subiram 6.8%, da Audi subiram 3.8%, VW subiu 2.8% e Seat subiu 2.6% - o melhor ano para a Seat desde 2007. Nos comerciais as vendas subiram 11%.
2017 promete muitas novidades para o grupo com 60 modelos novos ou atualizados que inclui os novos VW Polo, VW Touareg, Skoda Yeti, Seat Ibiza, Seat Arona, Porsche Cayenne, Audi A8, Bentley Continental GT e muitos outros.
Ainda não há números oficiais mas é bem possível que até ultrapasse a Toyota como maior construtor automóvel do mundo - a marca japonesa disse que esperava terminar 2016 com 10,09 milhões de unidades vendidas, ligeiramente abaixo das 10.11 milhões previstas.


Também tu Citroen C4 Cactus?!
Segundo o jornal francês Le Parisien citando um estudo feito em vários países (Espanha e Itália) pelo Joint Research Center (muito associado com a Comissão Europeia) em que o C4 Cactus BlueHDi 100 foi apanhado em testes de estrada com emissões muito acima dos limites legais. E o quanto é "muito"? Como podem ver pelo gráfico abaixo do Parisien em Itália foi apanhado a emitir 585 mg de óxidos de azoto por quilometro quando o limite é 80mg/km. 
A PSA demonstrou surpresa pelos resultados, particularmente porque esta motorização já tinha sido testada pelas autoridades francesas no âmbito da investigação que este iniciou com o dieselgate.


Renault e outros também debaixo de olho em França
A Reuters, citando uma fonte na procuradoria de paris, diz que estão a investigar a Renault sob suspeita de falseamento de emissões automóveis dando seguimento ao que a agência de proteção do consumidor DGCCRF encontrou na sua investigação. 3 juízes têm estado a acompanhar a investigação à Renault mas ainda não há uma decisão se segue para julgamento.

Mas não é só a Renault com problemas gauleses: segundo a ministra francesa do ambiente Segolene Royal a investigação poderá ir além da Renault já que testes apanharam outros construtores com emissões acima dos valores legais - infelizmente não deu grandes detalhes a quem se referia. 

Traduzindo diretamente uma das perguntas da entrevista de Royal ao Le Journal du Dimanche:
Como explica que apenas a Renault está, com a Volkswagen, a ser investigado pela justiça francesa?
Um certo número de anomalias foram detetadas em veículos da Renault. Os controlo efetuados ultrapassam em muito os valores autorizados. O mesmo acontece noutros construtores mas num nível/valor diferente. Poderam vir a haver outros inquéritos. É uma questão para a justiça e não interfiro. É objetivo/função do inquérito determinar se a Renault usa dispositivos como a Volkswagen usou. A justiça dirá se eles usaram apenas as falhas no sistema. Não tenho razões para pensar que a Renault agiu como a Volkswagen. Tenho também que sublinhar a transparência e disponibilidade dos dirigentes (da Renault) perante a comissão.

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