Citroën C4 Cactus Ensaio

Aviso que este será um pouco como o ensaio do Renault Twizy - quando ensaio um automóvel com o objetivo de escrever acerca dele tento ser o mais independente e ponderado possível, e apesar de ter encontrado bastantes pontos negativos e limitações, adorei o C4 Cactus. Tanto que ensaiei um e pouco depois fui experimentar outro! 

Primeiro contacto
Até agora "automóveis acessíveis" podia significar 2 coisas - automóveis com motores anémicos e sem qualquer equipamento, ou automóveis low-cost tão interessantes como comer uma caixa de cartão ao pequeno-almoço de uma segunda-feira fria e chuvosa depois da sua equipa de futebol ter perdido no dia anterior para o seu maior adversário. Mas a Citroen creio ser a única marca que alguma vez conseguiu fazer automóveis acessíveis e divertidos: já tivemos o 2 Cavalos, Diane, Mehari e outros - este C4 Cactus é um descendente desta linhagem e uma lufada de ar fresco. 


Mas é também um quebra-cabeças - apesar da designação C4 é na verdade baseado na plataforma PF1 do Citroen C3 mas com vias e distância entre eixos aumentada. Ou seja, tens mais de C3 Picasso do que propriamente C4 - algo que não é necessariamente mau: o uso dessa plataforma permite o reduzido peso e preço, e está mais que testada e fiabilizada. 

Também não é um SUV - é 17 centímetros mais curto que o Citroen C4 (tem 4,16 metros de comprimento no total - nas imagens parece grande mas ao vivo não é), não tem a suspensão elevada (1,53 metros de altura) e não tem opção de 4x4 ou diferencial inteligente como o Peugeot 2008. Sinceramente é difícil "classificar" o Citroen C4 Cactus... 

Qual foi a ideia da Citroen? Confrontada com a queda de vendas a marca francesa tinha que criar algo capaz de seduzir, cativar, sem roubar clientes à Peugeot ou à sua actual gama usando apenas o que tinha à mão e o orçamento do almoço. O Citroen C4 Cactus foi o resultado: é um automóvel básico com apenas o que precisa de um automóvel, mas com um twist francês muito bem desenhado (por dentro e por fora), diferente e interessante. 

Sei que é feio recorrer a chavões, mas é inevitável no C4 Cactus. Não é elegante ou muito bonito, mas o seu design atípico atrai sorrisos por onde quer que passe - até este dia não encontrei quem não gostasse dele. E claro, a "piece de resistance" - se um cacto tem espinhos como defesa, este C4 Cactus tem as suas Airbumps nas portas. Pessoalmente recorda-me mais algumas tabletes de chocolate - no Salão de Paris apetecia-me trincar um... 
Se procura algo acessível, pratico, interessante e gosta de chocolate é difícil não gostar do C4 Cactus. 


Interior
Sentado ao volante temos uma sensação de espaço, não parece que estamos num automóvel relativamente pequeno - um Qashqai parece mais claustrofóbico. Mas por todo o lado encontramos pequenos detalhes "interessantes" - sim, abuso dessa palavra. 

Temos uma boa visibilidade para o exterior e bastante espaço para as pernas mas cuidado quem tiver as pernas compridas (como eu): a direção é apenas de regulação em altura, a regulação em profundidade faz falta e não está disponível nem em opção. 

O tablier é baixo e simples mas sem ser "básico" - tirando os interruptores no centro debaixo do ecrã temos 2 ecrãs LDC (um à frente do condutor que substitui o clássico conjunto de instrumentos e outro central para o sistema multimédia), um volante...e pouco mais. 
O sistema multimédia com ecrã táctil de 7 polegadas controla quase todas as funções do automóvel (ar condicionado, rádio, acesso aos smartphones, GPS e mais) o que simplifica o tablier de forma incrível - lembro-me de contar botões de um Citroen C5 e perder a conta quando passei dos 40, e neste C4 Cactus mal chega à dezena. 

Temos as pegas das portas que parecem tiradas de uma bolsa Chanel e aquele porta-luvas que é o mais pratico e inteligente que já vi. 

Normalmente o airbag do passageiro fica por cima e rouba muito espaço - mas no C4 Cactus os airbags dianteiros estão no tejadilho que liberta imenso espaço. 
As portas têm grandes suportes capazes de engolir garrafas de litro e meio. Apenas os plásticos duros desagradáveis ao toque (e fáceis de riscar) em alguns sítios desilude - mas é o preço a pagar...pelo preço do C4 Cactus. Frase não saiu muito bem eu sei. 

À frente é confortável mas quem se sentar atrás é capaz de ter alguns problemas: os mais altos podem dar com a cabeça no tejadilho, para poupar dinheiro e permitir o designe exterior as janelas atrás só abrem a compasso que não ajuda a refrescar o pessoal e ao sair cuidado com as canelas nas portas. 

Mas o pior é o rebater do banco traseiro - as costas são uma peça única (mais economias) e não dobra completamente plano - fica atravessado no meio não permitindo transportar objetos compridos nem levar ninguém no banco de trás. E para rebater é preciso chegar a 2 botões um em cada extremidade das costas do assento: impossível se tiver braços curtos e estiver sozinho. A mala até é espaçosa mas a abertura é alta o que pode dificulta a carga. 
Em termos de interior posso dizer 2 coisas: primeiro tem que ir para a caixa semiautomática para não ter a manete de velocidades e banco dianteiro (e não 2 assentos normais) e recomendo vivamente a opção do tejadilho de vidro (enche o habitáculo de luz e torna-o num magnifico sitio para se estar). 

Condução 
Tive hipótese de testar 2 variantes do Citroen C4 Cactus - o 1.6 litros diesel e-Hdi de 92 cavalos com a caixa semiautomática ETG6 e o 3 cilindros 1.2 litros Vti de 82 cavalos com caixa manual de 5 velocidades. E sinceramente, quem me dera não ter feito...

O motor 1,2 litros é discreto, vibra pouco a baixa rotação (só nas rotações mais altas é que começa a fazer barulho a mais) e desembaraça-se bem na cidade, mas ficava sempre com a impressão que com uma pouco mais de potência seria ainda melhor - a variante de 110 cavalos é capaz de ser a mais recomendada a gasolina (e a de 72 cavalos a evitar), especialmente se conduzir com mais pessoas e carga a bordo.
Mas quando se acelera um pouco mais nota-se que o C4 Cactus não gosta muito disso: a suspensão é confortável mas ao entrar nas curvas um pouco mais rapidamente nota-se o adornar da carroçaria - e para "ajudar à festa" não havia uma única pega de apoio para os passageiros. 

A caixa tem as relações um pouco longas demais o que obriga a ter que trabalhar a caixa para manter um ritmo mais forte - estranho ter só 5 relações já que quase todos usam 6 nesta altura do campeonato.

Mas conduzir rápido seria contranatura neste C4 Cactus - não é velocidade, é estilo. E para ter "o estilo" tem que ir para a caixa semiautomática ETG6 (apenas disponível nos motores diesel) para poder ter o banco dianteiro corrido. 

E isso traz-me ao C4 Cactus e-hdi 92 com a caixa ETG6 que continuo a não gostar muito: não é propriamente suave (soluça ao mudar de velocidade), é pouco reativa e as vezes não se consegue decidir que velocidade vai meter - mas ao escolher esta caixa pode ter o banco dianteiro corrido (não dá para 3 pessoas à frente) sem a manete da caixa de velocidades no caminho. O motor e-hdi é reativo e o ótimo start-stop corta e arranca o motor de forma quase imperceptivel. 

Resumidamente não é daqueles automóveis de condução entusiasmante - creio que a Citroen queria um automóvel confortável para condução descontraída. E é assim que o C4 Cactus gosta de ser conduzido - pode puxar por ele mas não ira ganhar muito com isso e a longo prazo seria esgotante. 
Trava bem, a direção é leve e precisa se bem que não regressa bem ao centro e a suspensão faz um bom compromisso entre conforto e eficácia se bem que inclina bastante quando abusado ou em estrada irregular demais. Notei, em ambas as versões e a velocidade um pouco mais alta, algum barulho aerodinâmico que não percebi se vinha das barras do tejadilho ou de alguma borracha da porta. Normalmente costumam ser os espelhos retrovisores mas este parecia vir de cima. 

Antes de partir para a conclusão... 
Há mais um ponto que queria fazer - e é o preço. Estive a perder algum tempo no site da Citroen Portugal e segundo este o C4 Cactus arranca nos 17.000 euros, mas esse preço é para a versão básica "Live" e rapidamente muda se quisermos um Cactus "como deve ser". O primeiro fator é que tem que ir para a caixa pilotada semiautomática para poder ter aquele banco dianteiro e isso obriga a ir para o 1.6 Hdi 90 cavalos. Assim de repente o preço passou para pelo menos 21.000 euros.

Depois temos as cores - há um vermelho e um amarelo incluído no preço, mas se quisermos outras cores algumas acrescem 150 euros (como o Branco Banquise), outras 600 euros (como o branco Perle que vemos nos anúncios). Escolher os AirBumps diferentes dos de série acresce 100 euros. Se não for para mais nenhuma opção o C4 Cactus 1.6 e-Hdi 92 ETG6 Feel fica por 23.000 euros. Mas para mim, o pacote perfeito teria que ter o teto de vidro panorâmico que é fenomenal - para isso tem que ir para o nível de equipamento Shine e esse não fica por menos de 26.000 euros e por esse preço consegue um C4 Picasso 1.6 HDi 92 CVM Seduction. 


Concluindo
O Citroen C4 Cactus é um daqueles momentos de génio que são raros, prova que as vezes as melhores soluções são as mais simples. E com a exceção do rebater do banco traseiro não encontrei algo que fosse "mau" mas sim muita coisa podia ser melhor - não sei se foi essa a ideia para não sobrepor com outros modelos da Citroen. 

Mas sabem que mais? Comprar um automóvel é um "equilíbrio" entre o lado racional e irracional, entre a necessidade e emoção - e este Citroen C4 Cactus pode bem ser daqueles que puxa mais à emoção que à razão e se gosta de conduzir "diferente" e de forma descontraída é bem capaz de simplesmente perdoar estas falhas... 

Prós:
Interior inteligente e espaçoso
Aspeto alternativo, original
Motor diesel reativo
Suspensão confortável

Contras:
Modularidade/rebater bancos traseiros
Comportamento pouco preciso
Preço de personalização
Caixa automática lenta
Caixa manual de relações longas
Alguns barulhos aerodinâmicos

3 comentários:

  • Anónimo says:
    20 de janeiro de 2015 às 00:26

    só uma pequena nota:
    a caixa pilotada existe como opção no mercado francês. Será que a pedido do cliente, a Citroen não possa entregar a versão a gasolina com essa caixa aqui em Portugal!?

    Estou a ficar farto dos motores a diesel por causa dos filtros de partículas.... (manutenção incomportáveis)

    http://configurer.citroen.fr/Configurator/Index/1CE3A5/?_ga=1.260349962.604586751.1421713116

  • Turbo-lento says:
    20 de janeiro de 2015 às 13:07

    Por norma sim, apenas é capaz de demorar mais tempo a receber o automovel - tive uma colega que queria um Audi A1 com uma certa combinação de cores e equipamento e disseram que iria demorar 10 meses a entregar o carro.

  • Turbo-lento says:
    23 de janeiro de 2015 às 12:16

    Esqueci-me de incluir uma informação - pessoalmente a gasolina acredito que o mais recente 110 cavalos é a melhor, 82 cavalos chegam mas são curtos e apesar de mais potente aposto que será mais economico.
    Relativamente à caixa de velocidades referi a caixa pilotada que é necessária para ter o banco dianteiro corrido mas não consigo recomendá-la: não fez uma unica mudança de velocidade como deve ser

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