Algo cheira mal no estado da GM

Para quem não percebeu o título é de Hamlet de Shakespeare, que achei apropriado para este resumo do Switchgate - tapem o nariz.

A General Motors esta dividir a engenharia automóvel em 2 departamentos - "Global Product Integrity" e "Global Components and Subsystems". Até agora a engenharia automóvel era dirigida por John Calabrese (que se reforma), o Global Product Integrity será dirigida por Ken Morris (atual diretor de engenharia de chassis) e a Global Components and Subsystems dirigida por Ken Kelzer que vem da engenharia de motorizações na Europa. Claro que novamente a GM faz questão de sublinhar que não tem nada a ver com a atual problema que tem em mãos - mas não deixa de dizer que a nova estrutura permitirá identificar problemas de segurança mais rapidamente.

Para "ajudar" a acelerar a identificação de problemas num dos seus automóveis a GM (e a Ford também) vão ligar o valor dos bónus pagos à qualidade - ou seja, melhor qualidade ou bónus mais pequenos. Se a empresa não atingir os seus objetivos de qualidade, todos os trabalhadores do administrativo ao CEO recebem menos bónus. Claro que o tamanho do bonus não se compara - apesar de todos estes problemas Mary Barra pode vir a ganhar (só em 2014) 14,4 milhões de dólares, o presidente do conselho Dan Ammann leva 6,8 milhões e o CFO Chuck Stevens 4 milhões. Esta é a atual equipa - aquela que acabou de sair e deixar esta confusão toda também saiu bem compensada: o anterior VP Girsky recebeu em 2013 6,39 milhões e o CEO Akerson 9,1 milhões em 2013.

E já que falamos em dinheiro, como é que vai o fluxo de dinheiro na GM? Bem, nos primeiros 4 meses de 2014 a GM teve lucros de 125 milhões de dólares que é 85,5% menos relativamente ao mesmo período de 2013! Sim, ainda fez dinheiro nestes 4 meses, mas...85,5% menos dinheiro! É o pior 1º quadrimestre da GM desde a falência em 2009, apenas salvo pelas vendas de pick-ups nos EUA. Tudo pela conta avultada destas recolhas - a 10 de Abril a GM anunciou que no 1º quadrimestre essa conta era de 1,3 mil milhões de euros, que a GM também disse que ainda pode aumentar mais.


Antes que gritem "Machista" não podiam estar mais enganados - sou completamente a favor que todos (homens e mulheres) sejam reconhecidos pelos seus feitos e resultados e não apenas o que escondem nas calças. E apesar de ter lido o currículo de Mary Barra e respeitar a sua longa carreira e experiencia no mundo automóvel a verdade é que ela acabou de chegar ao lugar e já está a ser reconhecida como uma líder? Sim, é a 1ª CEO feminina do mundo automóvel mas ser reconhecida por apenas isso creio ser tão ofensivo como o machismo que domina o mundo automóvel. Creio que a liderança de Barra será testada acima de tudo pela forma como conseguirá lidar com este Switchgate e não por ser uma mulher que chegou ao topo do mundo automóvel dominado pelos homens - sinceramente, as vezes parece que só a colocaram no lugar porque é feio bater numa senhora...

Mas outra pista para esta nomeação está também em quem escreveu a dedicatória a Barra na Time - um senhor chamado Lee Iacocca. Para quem não conhece é um dos principais responsáveis pelo 1º Ford Mustang e foi o CEO responsável pela recuperação da Chrysler em 1978 até que se reformou em 1992. Mas no currículo tem também uma mancha negra chamada Ford Pinto - Iacocca era presidente da Ford nos anos 70 quando dirigiu o desenvolvimento do que seria o primeiro compacto da Ford para o mercado americano.
 
O problema é que (em 1977) foi provado que devido ao design estrutural do Pinto e péssima colocação do tanque de combustível era possível que num impacto de trás o tubo de abastecimento de combustível e o próprio tanque podia partir-se e incendiar-se. Foram atribuídas 27 mortes por incendio ao Pinto. Neste assunto, Lee Iacocca disse "Safety doesn't sell" (Segurança não vende). Para ajudar a ilustrar ainda mais o "lado económico da vida humana" segunda a Ford do senhor Iacocca, na altura do julgamento uma revista publicou um memorando interno (que veio a ser chamado de "Ford Pinto Memo") - em que a Ford fez uma análise de custo-benefício entre reparar os Ford Pinto e pagar processos em tribunal dos acidentes. Pelos vistos na altura arranjar os carros custava 137 milhões (isto no campo de Costs/custos) e enquanto que pagar indeminizações de mortes, estropiados e queimados era de 49,5 milhões (isto na categoria de Benefits/Benefícios).

Somando tudo percebe-se onde isto vai dar - Barra não está para brincadeiras, esta protegida pelos termos da falência da "velha GM" relativamente aos automóveis defeituosos e tem apenas que lidar com os casos que envolvem mortes e sabe que isso que lhe vai custar caro mas com as jogadas certas vais sair por cima. Com algumas mudanças de equipa que nada tem a haver com o atual problema mas que vão evitar problemas dá o ar que "há mudança interna" (apesar de ser pessoal da casa a dar lugar a outro pessoal da casa) e enfim esta capa da Time - acima de tudo uma manobra publicitária muito bem colocada para criar a imagem certa em torno de Mary Barra - esta não está decididamente pelos ajustes.

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