General Motors não aprendeu com a Toyota

Eu acreditava que os construtores automóveis tivessem aprendido algo com o debáculo da Toyota e dos aceleradores bloqueados (que ainda mantém a Toyota a entrar e sair de tribunais americanos) mas parece que a General Motors não - porque devido a um problema com a ignição de certos automóveis que já conhecia desde 2004, mas não tomou medidas suficientes para resolver o problema e neste momento tem 13 mortes nas suas mãos devido a este problema. O problema é, em resumo, alguns automóveis da GM tinham um problema no canhão da ignição em que era possível o carro cortar a ignição - o problema é que ao fazer isto corta a assistência aos travões e desliga os sistemas de segurança como os airbags.

Este caso despertou para o mundo com Brooke Melton - em Março de 2010 Brooke conduzia o Chevrolet Cobalt de 2005 quando a ignição desligou-se cortando a assistência à direção. conseguiu encostar o carro à berma e levá-lo a um mecânico. Recolheu o carro alguns dias mais tarde com a indicação que estaria resolvido. Infelizmente não foi assim: ao volante do seu Chevrolet Cobalt num dia à noite chuvoso em 2010 perdeu potência e o controlo do carro. O automóvel cruzou a linha separadora e colidiu de frente com outro automóvel - análise da caixa negra provou que a ignição foi desligada na altura do acidente e com isso os airbags não foram ativados.

Cronologia
A GM identificou este problema pela 1ª vez em 2004, segundo informação que o construtor deu à NHTSA. Os engenheiros propuseram uma solução em 2005 que nunca foi implementada. A GM arranjou apenas 474 automóveis via um boletim técnico em 2005 e actualizado em 2006.
Em 2007 a NHTSA questionou a GM sobre as ignições dos Cobalt quando concluiu que um acidente fatal estava ligado a uma falha dos airbags - isso levou a uma investigação interna. Pelo meio nem a NHTSA nem a GM conseguiram fazer com que o processo chega-se à recolha que devia ter sido feita - porque ainda falta saber.

Presente
Agora, a GM anunciou a recolha de 1,6 milhões de automóveis, que inclui Chevrolet Cobalt (2005 a 2007), Pontiac G5 (2007), Saturn Ion (2003 a 2007), Chevrolet HHR (2006-2007), Pontiac Solstice (2006 a 2007) e Saturn Sky (2007). E ai entra a ligação à Europa - o Pontiac Solstice foi comercializado na Europa como o Opel GT segunda geração do qual foram vendidas 2.300 unidades. Pessoalmente conheço 1 na área do Montijo/Alcochete e outro em Lisboa.

A National Highway Traffic Safety Administration já esta a investigar este assunto e a General Motors pode levar com uma multa até 35 milhões de dólares por não efetuar a recolha atempadamente, bastante mais que a Toyota pagou em Dezembro de 2012: 17,35 milhões pela mesma coisa.

Mas a história fica ainda mais escalabrosa - primeiro este caso só veio a público porque o advogado que representava a família de Brooke Melton contra a GM foi contactado por um engenheiro da marca americana que tinha tido o mesmo problema antes dos automóveis estarem à venda, yup a GM sabia do problema à uma década atrás. Esta revelação acelerou o acordo entre as partes mas tornou o assunto público.

Claro que estes 31 acidentes já ligados a este problema devem seguir para tribunal, mas e esta é a parte mais escalabrosa, o mais certo é não vencerem ou receber qualquer indemnização. É que a GM entrou em falência em 2009 e como tal renasceu como uma nova entidade legal - a General Motors Corporation deu lugar à General Motors Company. O nome pode não ter mudado muito mas em termos legais a empresa que fabricou os automóveis defeituosos já não existe. A atual GM não tem nada, legalmente falando, a haver com este problema - só pode ser responsabilizada por acidentes que tenham ocorrido depois de Julho de 2009, antes disso é responsabilidade da antiga GM e isso teria que ir para tribunal de falências onde o mais certo era não ir longe.
Estes automóveis não foram produzidos pela atual GM logo não têm que pagar um cêntimo - aliás, durante a falência a GM queria descartar toda e qualquer responsabilidade por modelos anteriores a 2009 e foi a pressão de grupos de advocacia e proteção do consumidor que conseguiram com que alguma ligação ficasse no acordo da falência.

Mas tudo é salvo pelo poder da comunicação social - a GM ficaria muito mal vista e exposta à raiva de muitos se se recusa-se a compensar aos que ficaram feridos ou as famílias dos que morreram em acidentes. Daí que não duvido que todos estes casos venham a ser resolvidos fora dos tribunais graças a muitos cheques chorudos.

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