Tributo ao grupo B

Prestar tributo a uma máquina pode parecer algo fútil. Mas o homem sempre lutou para ir mais longe, mais rápido e no desenvolvimento destas máquinas centenas de pessoas deram o seu melhor para chegar primeiro. Homenagear as suas obras - os carros - é a melhor forma de homenagear todas as pessoas que neles trabalharam.


Introdução

O Grupo B foi criado pela FIA em 1982 para substituir 2 classes de carros, tendo também sido introduzido o grupo A.
O Grupo A é derivado de carros de grande produção de 4 lugares, sendo limitados em termos de peso e potencia. O objectivo era conseguir um grande número de equipas privadas.

Por outro lado, o Grupo B tinha poucas limitações. Peso ao mínimo, materiais avançados e sem limitações de potência. O objectivo era atrair os grandes fabricantes de automóveis para mostrarem os seus talentos de engenharia sem grandes limites, prometendo-lhes vitorias, e por consequência, grande publicidade. Maioria dos carros dispunham de 500 ou mais cavalos e tinham que ser produzidos, pelo menos, 200 homologados para a estrada. Para as "evoluções", só tinham de ser produzidas 20 unidades de estrada.


Ambiente

O desenvolvimento tecnológico no mundo dos rallies era (e ainda é) feroz. Tecnologia de ponta hoje, esta desactualizada amanhã. Por isso, os construtores despejavam dinheiro, tempo e recursos humanos na incessante procura da melhor, mais rápida tecnologia.
O mundo dos rallies oferecia aos espectadores velocidade e espectáculo. Para os construtores, um meio de divulgar os seus carros e um campo de testes extraordinario. O grupo B durou apenas 3 anos, mas o espectáculo que estes carros ofereceram é inesquecível.





O elencoO primeiro a chegar, e a dominar, foi o Audi Quattro Sport S1. Baseado num carro de série, viria a mudar o mundo dos raliies ao introduzir com sucesso a tracção as 4 rodas. Era uma máquina brutal com mais de 500 cavalos.

A Lancia introduziu o 037 para substituir o velho Stratos. O 037 era apenas de tracção traseira, mas a aposta da Lancia era criar um carro rápido e simples de manter.

Só em 84 é que surgiu um concorrente de peso. O ralie da Corsega de 1984 foi marcado pela apresentação do Peugeot 205 T16. Este tornou o Audi e todos os outros concorrente obsoletos. Era um carro pequeno, muito leve com o motor na posição central (ao contrario da posição dianteira no Audi).Sob a direcção de Jean Todt (actual director desportivo da Ferrari), o Peugeot 205 T16 conseguiu o titulo de construtores de 1985 e 1986.


Mas isto era apenas o começo.
Rapidamente a Audi respondeu com o Quattro S2 (houve uma evolução com 1000 cavalos que (nunca correu porque os pilotos disseram que era incontrolável).
A Ford com o RS200
A Lancia apresentou o Delta S4 para substituir o 037. Estão a ver o Golf GT com turbo e compressor? Este já o tinha em 1985!E a Austin Rover o Metro 6R4. Como melhorar um Metro? Enfiar um V6 no banco de trás!Outros construtores quiseram aproveitar o furor o público como um meio para vender os seus carros e muitos começaram a desenvolver os seus Grupo B...alguns com pouco sucesso.
Ferrari 288 GTO
Este Ferrari nunca fez muito sentido... até se perceber que a Ferrari queria inscreve-lo para o Grupo B. Infelizmente, o grupo B terminou antes de poder correr.
Porsche 959

Citroen BX 4TC
Tão lento e cheio de problemas que a Citroen comprou todos os carros de volta e destrui-os!

E não eram maquinas fáceis de conduzir. Segundo o grande Walter Rohl, os pilotos tinham de se adaptar ao carro e não ao contrário (como é actualmente). Mas oiçam directamente dele...



Elemento comum? Como formula 1, eram os mais rápidos, os mais potentes, os mais resistentes, mais leves, com a melhor aceleração e capacidade de curva, de travagem, e bastava olhar para eles. Tecnologia, potencia, velocidade e perícia tudo no maior espectáculo do mundo.

Os grupos B eram os mais desafiantes para condutores e técnicos. Os condutores tinham que manter aquelas máquinas infernais sobre controlo e os técnicos a procura daquele cavalo de potencia adicional que pode ditar a vitoria.

Vejam por vós mesmos...especialmente o famoso conduzir com 3 pedais que foi inventado com o grupo B.


A recompensa maior era para os espectadores: serem capazes de ver os melhores pilotos do mundo dar o seu melhor nas máquinas mais diabólicas alguma vez imaginadas.


O inicio do fim
O nome Harry Toivonen é conhecido dos fãs dos ralies. Piloto rápido que ganhou o seu primeiro ralie no Monte Carlo de 86 ao volante do Delta S4, sempre se mostrou mais rápido que os restantes e abriu bons presságios para um bom campeonato. Mas o destino seria diferente.
Viria a morrer tragicamente num acidente no Rallie da Corsega. Foi o inicio do fim para o grupo B. O carro saiu numa zona sem protecções e caiu numa ravina. Seguiu-se um incêndio que matou ambos piloto e co-piloto. Até aquele momento, ele estava a ganhar todas as etapas com uma grande margem sobre todos os outros...

A morte de Toivonen e Cresto, em conjunto com o acidente de Joaquim Santos no rali de Portugal...


E o acidente do piloto Marc Surer em directo na televisão (co-piloto faleceu) levou a FIA a proibir os Grupo B em 1987.




Luta de geraçõesActualmente, é muito comum os construtores usam os feitos desportivos para promover os seus carros. O problema é que os carros que correm actualmente nos campeonatos de turismo ou rali não têm nada a haver com os que podemos comprar. São protótipos com um aspecto e nome familiar.
Mas naquela altura, para poderem participar nos rallies, os construtores eram obrigados a construir versões de estrada dos carros de rallies e vende-los ao público!

E eram iguais aos carros que corriam nas provas. No caso do Lancia Delta S4 Stradale, era só uma questão de retirar o restritor do turbo e já estava.
Querem ver a comparação entre um grupo B e um carro muito rápido? Vejam a aceleração de um Ford RS200 e um Lamborghini Gallardo.

O Fim?Nem por sombras - mudanças a nível de regulamentos permite a inscrição destes carros em ralies de clássicos. O killer B's estão de volta!

5 comentários:

  • PD says:
    16 de outubro de 2008 às 20:33

    Meu deua até tremo a vêr estas coisas..., belos tempos, isto é que éram carros de rally, só quem nunca viu isto ao vivo, tenho saudades deste tempo, e de vêr e seguir o rally por Sintra e por outras paragens, para os mais novos, saberem que os verdadeiros carros de rally foram estes, os do Grupo B, os dos dias de hoje é para meninos. Só conduziam estes carros pilotos de barba rija! :P

  • PD says:
    16 de outubro de 2008 às 20:37

    E não tinhas as "paneleirices" que hoje os carros tem a nivel de segurança activa, aqui éra pura e dura, só quem tinha kit de unhas é que mexia nisto ;) muita terra e pedras comi eu a conta deles...

  • Miguel says:
    16 de outubro de 2008 às 22:04

    Isto sim é um tributo.
    Antes de mais parabéns ao turbo-lento pelo post.
    Eu felizmente apesar de ainda muito novo cheguei a ver estes carros ao vivo. Não tinha ainda a noção do quão rápido eram mas lembro-me perfeitamente de os meus favoritos serem, e sem ligar aos pilotos, a Audi e a Ford.
    O que verdade é que com ou sem a influencia do meu pai essa paixão por estes carros mas também pelos ralis, nasceu sem duvida pelo som dos próprios, pela velocidade mas principalmente pelo cheiro. Aquele cheiro " a broa" nunca mais me saiu da memória.
    No entanto os tempos mudaram, em parte para pior, mas felizmente mais para melhor na minha opinião.
    Uma coisa é certa, o facto de as marcas para poderem participar terem que produzir os mesmo carros para venda ao público fazia (pelo menos a mim fez) as pessoas AMAREM aquelas máquinas.
    Duma coisa eu tenho a certeza, se ganha-se o euromilhões ia atrás de pelo menos o Lancia 037, a Ford rs200 e o Audi4.
    E punha a minha cama no meio deles...
    É excêntrico ou não?? ;)

  • Richard says:
    17 de outubro de 2008 às 09:44

    boa leitura! muito bom turbo-lento, obrigado por me fazeres recordar estes monstros sagrados! O grupo B devia de voltar utilizando a tecnologia actual, seria algo que desafia a própria mente!
    Hoje em dia isto tá muito seguro, não tem metade da piada nem dos cavalos!
    Lembro-me de ler sobre a equipa da Audi remover pontas de dedos humanos do radiador de um dos seus carros durante o rally de Portugal! Hardcore hein! lol

  • Chevelle says:
    14 de janeiro de 2011 às 09:36

    Muito bom, 5*.

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