Dacia Sandero - ensaio

Recentemente caiu um convite no meu email que gerou alguma discussão interior - o convite em questão era para ensaiar automóveis da marca Dacia, e isso deixou-me dividido: por um lado sou um fã da liberdade e prazer de condução algo para o qual os Dacia não são propriamente feitos, mas por outro lado a Dacia é uma marca relativamente desconhecida em Portugal e uma das mais recentes histórias de sucesso do mundo automóvel.
Como o título deixa indicar a curiosidade venceu e aceitei o convite. 

Uma curta introdução
A marca Dacia é relativamente desconhecida em Portugal: só chegou a terras lusas em 2008 com a estreia do Logan MCV diesel e os anúncios nos média apenas arrancaram com o Duster, daí que uma pequena introdução é necessária para compreender a importância e papel desta marca. 
Tal como a Lada estava para o governo soviético ou o Trabant para o governo da Alemanha de Leste, a Dacia foi fundada em 1966 como construtor nacional da Roménia de Nicolae Ceausescu. Nunca criaram um automóvel próprio, construíam sob licença automóveis de outros construtores principalmente Renaults, e alguns deles até andaram por cá - quem se lembra de ver umas Renault 12 pick-ups em Portugal? Eram Dacias. 
Em 1999 a Renault adquiriu a Dacia com o objectivo de criar uma marca automóvel que ofereça automóveis resistentes, fiáveis a baixo preço para os mercados emergentes da Europa de Leste e do Magrebe - o primeiro produto da "nova Dacia" foi o Logan.

Foi um enorme sucesso e com base nesses resultados (e no facto que havia um grande número de pessoas a importar estes Dacias em paralelo para a Europa ocidental) a Renault resolveu expandir a Dacia para outros mercados e com isso chegar onde os Renault não chegavam. Como é que isso correu? 

Vendas: O sucesso no mundo automóvel mede-se em vendas e nos últimos 10 anos apenas a Dacia já vendeu mais de 3 milhões de automóveis. O automóvel mais vendido pelo grupo Renault em todo o mundo é o Duster. 

Em volume de vendas é a 5ª marca em França e a 2ª marca não alemã mais vendida na Alemanha (curiosamente é também o pais onde se vendem mais Dacias). Em Portugal calcula-se que um 1 em cada 20 carros vendidos a particulares seja um Dacia (sem contar os inúmeros táxis que começaram a aparecer).

Pode parecer estranho vender tantos automóveis "básicos" em países que têm os meios financeiros para "algo mais", mas nestes países o automóvel já não tem aquela representatividade ou status e as pessoas querem apenas um automóvel que seja fiável e confortável para ir do ponto A ao ponto B. 
E claro também há que contabilizar as pessoas que não tinham dinheiro para um automóvel novo e não tinham outra escolha se não ir para a roleta russa dos usados - mas pelo preço de um usado pode agora ter um automóvel novinho em folha com uma garantia de 3 anos! 

Mas o grosso das vendas da Dacia não são na Europa são por todo o mundo: a Dacia chega a 44 países e em muitos destes os Dacia são vendidos como Renaults - por exemplo no Brasil (2º maior mercado da Renault) e Russia (3º maior mercado da Renault). 
O que significa que não podem ser um produto inferior, sob risco de manchar o nome e imagem da marca globalmente. 

Fiabilidade e preço: Em termos de fiabilidade as associações de consumidores de França, Portugal, Bélgica e Itália distinguiram a Dacia como a marca mais fiável em 2012 e 2ª mais fiável 2013. Algo necessário tendo em conta que são desenhados para lidar com "estradas" que muitos de nós chamamos de "caminhos de cabras" - soa perfeito para algumas estradas de Lisboa não? 

Mas a "piece de resistence" é mesmo o preço - a título de exemplo, um Sandero começa nos 9.000 euros enquanto um Clio começa nos 13.000 euros, e por esse preço é possível ter um Lodgy de 7 lugares. Como é que produzem um automóvel tão barato e ao mesmo tempo resistente? 
-mão de obra barata: são construídos na Roménia e em Marrocos onde a mão-de-obra é mais barata; 
-formas simples: tal como no Land Rover serie 1 a Dacia usa painéis o mais planos possíveis, de formas e dobragem simples para não terem que comprar maquinaria complexa;
-componentes comprovados: não inventa nada de novo (não tem custos de investigação e desenvolvimento), usa componentes da Renault cujo o investimento já foi compensado e cuja fiabilidade já foi provada;
-soluções inteligentes (alguns exemplos): os interruptores dos vidros eléctricos na consola central simplificando as cablagens, assentos iguais à frente, os fechos das portas e os vidros laterais são iguais em toda a gama, etc;
-materiais simples e duradouros;

Resumindo - foram concebidos de forma inteligente e simples para serem robustos e baratos. Mas como são a conduzir? E viver com eles? Será que as concessões feitas para reduzir o preço torna-o "indigesto"? Foi a pensar nisso que sai para o parque exterior e vi que afinal tinha a toda a gama da Dacia para conduzir, do Sandero ao Lodgy passando pela Dokker! Isto ia demorar... 
(foto de uma das paragens junto ao rio Tejo) 
Para simplificar irei dividir em diferentes artigos um para cada modelo, e como não tenho grande aptidão para os comerciais irei deixar o Dokker de fora. Em cada artigo irei repetir a introdução acima, portanto apartir daqui entramos nos modelos em sí. 

Dacia Sandero - ensaio propriamente dito
Comecemos então pelo Sandero, um automóvel do segmento B - "marketing" para um automóvel do tamanho de um Fiesta ou Clio, mas com a particularidade de custar menos que um citadino como um Citroen C1. 
Apesar do baixo custo recebe os motores e caixa de 5 velocidades do actual Clio, sistemas de segurança (airbags, ABS, ASR, isofix) e até pode receber ar condicionado e um sistema multimédia idêntico ao do Clio. É baseado numa versão revista da plataforma de um Clio 2 o que permite manter não só o custo baixo mas também como já é mais que conhecida e fiabilizada permite a tal garantia de 3 anos.

Um pormenor que gostei no Sandero é que não tem mil e uma possibilidades de escolha - tem 1 carroçaria, 7 cores exteriores, 3 motores, 1 caixa de velocidades e 4 níveis de equipamentos (3 com certos motores). Escolher um menu no McDonalds é mais complicado! 


Primeiro contacto
O designe é um equilíbrio entre formas mais simples e o transmitir um ar de robustez - função acima de aspecto. As linhas simples e altura dão-lhe um ar despretensioso que no mundo actual de assinaturas visuais e abuso de cromados é até agradável.


Do ponto de vista exterior a versão de base Pack vai um pouco "longe demais" e pessoalmente evitava-a: apartir do nível Confort recebe fechos das portas e espelhos pintados na cor de carroçaria, faróis de nevoeiro e nova grelha dianteira que lhe dá um ar mais agradável e menos utilitário. 

Bem-vindo a bordo
No interior temos a continuação do tema "básico" do exterior - plásticos duros por todo o lado (onde os há) e material já conhecido de Renault's passados, mas o Sandero tem provavelmente o custo do metro cúbico automóvel mais baixo de sempre.... a sério! Recebemos imenso espaço - nunca me sentei atrás de um volante de um citadino ou mesmo compacto e ser capaz de dizer "era capaz de usar um chapéu aqui dentro". 
Atrás recebemos também bastante espaço (suficiente para 2 adultos volumosos) e consigo sentar-me sem esmagar a cabeça no tejadilho (coisa rara) e vastos arrumos nas portas e vários espaços para colocar pequenos objectos. Mas não fica por aí a questão do "espaço interior", segundo o catalogo a mala tem 320 litros mas rebatendo os bancos atinge 1.200 litros. Para terem uma ideia o actual Renault Megane 5 portas (não carrinha) tem 405 litros de mala ou 1.162 litros se rebater os bancos...

Os plásticos são simples e duros, talvez um pouco mais básicos do que aqueles a que nos habituamos nos últimos anos mas são tão simples quanto duradouros - perfeito se tiver crianças. Tudo está relativamente ao alcance da mão à excepção do controlo dos espelhos eléctricos (se os tiver) e o botão da regulação da altura das luzes que só é operável com o Sandero estacionado.
(foto do Dokker mas é exactamente o mesmo em todos os Dacia)
A nível de equipamento todos os Sandero recebem airbags dianteiros, ABS, ESP, direcção assistida, apoios de cabeça traseiros e fecho central das portas...e mais nada. A sério - evitam a versão de acesso Pack que é básica demais: não tem radio, ar condicionado, direcção ou assento regulável em altura. A versão Confort já inclui tudo isso incluindo rádio com ligação USB e Bluetooth e como disse acima alguns toques visuais que tornam o Sandero...menos utilitário digamos.
As versões que conduzi tinham o sistema multimédia (opcional e que surge em todas as fotografias do catálogo) com um ecrã táctil de 7 polegadas que inclui radio, GPS e bluetooth  é o sistema do Clio muito fácil de usar e aceitou o meu Samsung mais facilmente que qualquer outro sistema, mas é uma opção de 300 euros. O rádio básico que experimentei no Dokker (imagem abaixo) inclui leitor de CD e Bluetooth e funciona bastante bem.


Condução
Em termos de motores tem 3 escolhas no Sandero - o 4 cilindros de 1.2 litros de 75 cavalos bifuel com 75 cavalos (que segundo me disseram é capaz de percorrer 1200 quilómetros no total), o 3 cilindros de 0,9 litros turbo de 90 cavalos e o diesel de 1.5 litros de 90 cavalos. 
Tive hipótese de os conduzir a todos e a menos que precise mesmo do GPL e não anda muito em cidade desaconselho o 1.2 litros - é lento, preguiçoso e ruidoso demais. Sim, faz o Sandero andar de um lado para o outro mas não vai gostar dele - completamente desadequado para a auto-estrada ou mesmo na cidade. A transição entre combustíveis era basicamente indetectavel, creio que há uma redução de ruído a GPL, mas o botão para seleccionar está muito mal colocado e é impossível ver que combustível estamos a usar sem tirar os olhos completamente da estrada.
O 3 cilindros turbo a gasolina era muito melhor - com mais binário, menos ruído, desembaraçase muito bem e não obrigava ao constante trabalhar da caixa de velocidades. Para mim a melhor escolha para a cidade se bem que mesmo assim ainda se sente alguma vibração e ruido. O motor diesel 1.5 dCi de 90 cavalos é o topo de gama e para quem percorre mais quilómetros é a melhor escolha. É o mais potente e permite a condução mais relaxada, mas a velocidade mais alta consegue-se fazer ouvir no interior. 
A caixa de velocidades, igual a todos, bem guiada mas pouco refinada - sentia-se constantemente aquela sensação dos carretos a encaixar.

Mas a verdade é que estamos a falar de uma plataforma de um Clio anterior com suspensão elevada para lidar com caminhos de cabra. A suspensão é mole, o que permite que adorne um pouco nas curvas mas de forma previsível: mesmo abusando um pouco em algumas curvas senti-me seguro. O curso longo da suspensão permite uma condução confortável, especialmente nas maiores irregularidades - tivemos hipótese em percorrer algumas estradas mais irregulares e até uma secção em terra batida num pinhal e absorveu bem essas irregularidades que noutro automóvel mais moderno seria doloroso e caro nas costas e nos para-choques. Se tem que sair do alcatrão regularmente é uma boa escolha. 

Mas relativamente à um Clio ou Fiesta modernos, em termos de condução fica muito longe. 

Concluindo
Comecei o ensaio receoso de que me teria habituado demais aos confortos e tecnologias modernas para poder ser justo com o Sandero - e sejamos justos, conduzi os últimos Clio e 208 e creio que exceptuando no espaço interior (que era cavernoso) o Sandero fica a quilómetros de distancia. 

Em termos de sofisticação e qualidade o Sandero é aceitável, mas se olharmos para o preço pedido é incrivel o que recebemos - pelo preço de um Sandero Black Touch com o 0,9 litros que inclui muitos dos confortos modernos e a resistência para lidar com Marrocos ou Lisboa ainda não consegue comprar um Citroen C1 básico. E o Sandero consegue ser mais pratico e até se desembaraça bem na estrada. 

Claro que a grande pergunta é se um Dacia, incluindo este Sandero, é adequado para si? Pergunte-se: para sí a vontade/prazer de viajar e a necessidade de viajar são 2 coisas completamente diferentes? Eu não consigo a distinção, mas se para si a resposta é sim, então vai gostar do Dacia Sandero. Só lhe deixo 3 recomendações: evite a versão base de equipamento, não se entusiasme com as opções e evite o 1.2 litros. 

Pontos positivos
-Preço 
-Funcional
-Fiabilidade e resistência
-Conforto em estradas em mau estado 

Pontos negativos 
-Motor de 1.2 litros a evitar 
-Pode ser "básico demais" para alguns 
-Refinamento mecânico 

P.S. - o Sandero já está. Agora só falta o Sandero Stepway, o Logan MCV, o Lodgy e o Duster...

4 comentários:

  • Fátima Silva says:
    12 de outubro de 2015 às 15:07

    Boa tarde,

    Preciso de comprar um novo carro, a gasolina (faço no máximo 12000 km por ano), e como não tenho muita disponibilidade financeira, estava a ver usados. Entretanto apareceu este dacia sandero, e gostei do que li (tendo em conta que não percebo nada de automóveis). Para mim o aspecto e O PREÇO são agradáveis, bem como o espaço que penso ser importante.
    Mas o que acha do facto de ser um carro de 90 de cilindrada? Pelo que li parece que em cidade pode gastar muito, dentro dos 9/10 litros aos 100. Acha que serão excepções? O que acha do motor?
    Estaríamos mais bem servidos dse optasse por um carro usado? com poucos km?
    Agradeço a sua ajuda.

  • Turbo-lento says:
    13 de outubro de 2015 às 10:26

    O motor pode ser apenas um 3 cilindros de 0,9 litros mas graças ao turbo até se desembaraça bem na cidade, tem genica e de todos o que conduzi o que menos barulho fazia e vibrava menos - para referencia é o mesmo motor que a Renault usa no Twingo e Clio logo de confiança. Relativamente a consumos depende um pouco do "pé de chumbo" de cada um e de onde conduz (cidade, auto-estrada, etc) - 9 l/100km é possivel mas conheço um senhor que tem um Sandero Stepway 0.9tce e diz-me que anda mais em torno de 7 l/100km. O truque nestes motores é aprender a dosear o pé para evitar com que o turbo entre em força, ou seja, suavidade. O motor a gasolina tem a vantagem de não ter filtro de particulas como o diesel que poderá bloquear se fizer poucos quilometros e sobre fiabilidade (ainda) não há nada a apontar a esse motor.
    A versão Stepway é a mais cara mas mais jovial de aspecto e mais confortavel no que toca a suspensões.

    Relativamente a comprar um usado é sempre uma roleta russa não é? Comprar novo sempre tem uma garantia de 2 anos enquanto usado é um mistério. Pode correr muito bem, mas também muito mal. Recomendo sempre ir para um que seja recente ou de serviço, com poucos quilometros, de preferencia que tenha as revisões na marca (para fazer actualizações que vão surgindo) e ir com a matricula a uma seguradora perguntar se tem historico de acidentes. COmo faz poucos quilometros recomendo o ir para a gasolina que sempre tem manutenções mais baratas e por norma mais espaçadas. Mas isso depende do que estiver à procura e do quanto estiver disponivel a gastar.

  • Anónimo says:
    10 de março de 2016 às 13:09

    Comprei um Sandero (898 cili.. 90 CV turbo) novo em abril de 2015. O que mais gostei foi o facto do motor ser exatamente igual ao do Clio.. Mas de uns meses pra cá comecei a notar muito ruído do motor, nas subidas principalmente. É bastante económico (modo ECO), espaçoso, seguro e bom para viajar.. Estou muito contente até agora, apenas não dos botões de abertura dos vidros serem no painel e do motor ser ruidoso. É uma boa compra para quem não pode investir muito num carro.

  • Joshua Black Rock says:
    8 de maio de 2016 às 05:41

    Por aqui na ex colônia a Sandero Dacia constitui boa opção já que seu preço é compatível com o que oferece - em termos de Brasil é claro. Custando uns U$ 15.000 é até eficiente desde que não com o motorzinho de 1000 cilindradas...
    Tenho uma 2013 1.6. Nadica a reclamar. 11 Km por litro - a álcool...

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