Como a Editorial Presença arruinou "Os anos Top Gear" de Jeremy Clarkson

Recebi pelo correio há algum tempo de um amigo a versão portuguesa do livro "Os anos Top Gear" da Editorial Presença com uma nota "isto vai chatear-te". Intrigado pela nota, dediquei-me à leitura e infelizmente não tive que ir muito longe para perceber ao que ele se referia...MAS QUE RAIO EDITORIAL PRESENÇA!?
Confesso que pouco sei sobre o processo de edição de um livro - calculo que quando se traduz um livro que haja um tradutor e mais adiante um revisor que fará a verificação final antes do livro ser impresso. Segunda a ficha técnica este livro foi traduzido por um senhor chamado Alberto Gomes que calculo ser um dos muitos pseudónimos usados pelo Google Translate!! Não há indicação de quem tenha sido o revisor - iria sugerir que o revisor teria sido Ray Charles ou Stevie Wonder mas isso seria uma ofensa a ambos.

Entre gralhas de cultura automóvel e tradução descabida é simplesmente do piorio - com toda popularidade do Top Gear a Editorial Presença tinha a possibilidade de marcar pontos entre os fãs da série e dos automóveis. Abaixo estão alguns dos exemplos do que encontrei - mesmo sem perceber grande coisa de automóveis dá para ver que algo está errado...muito errado.

Página 34: "Também tinha um motor como devia ser. Sempre fui da opinião de que não há um possível substituto para os cubos, e aqui estava um carro com 7000 deles" - em unidades de volume são centímetros cúbicos daí virou cubos e sim o seu automóvel tem cilindros, não cubos.

Página 99: (relativamente ao Audi quattro original) "...escusado dizer que o motor turbo V5 de 2,2 litros" - por acaso era um motor de 5 cilindros em linha, mas V5 também é a referencia em Inglaterra para o livrete portanto não sei bem ao que ele se referia.

Página 129: (relativamente ao DB7) "Embora seja pratico ter um manual sobre uma caixa manual de 6 velocidades aparafusado a esse maravilhoso motor" - creio que a intenção era elogiar ter uma caixa manual acoplada ao motor...talvez

Página 153: "Tinham o motor do BMW M5 e podiam usar a seu bel-prazer o truque da suspensão do eixo traseiro" - creio que no texto original seria "trick suspension" que é jargão para suspensão inteligente ou avançada.

Página 259: "e tem um diferencial de deslizamento limitado nas jantes de nove polegadas" diferencial nas jantes...

Página 338: "(relativamente ao Focus RS)...não há como escapar ao facto que o sistema de bloqueio direccional" - creio que no texto original seria "torque steer" o fenómeno do carro puxar para um lado em aceleração

Página 339: "...tenho em casa 2 maquinas de jogos Sega Rally, nas quais duas pessoas podem pilotar um Delta integrale ou um Lancia Toyota Celica GT4" - sim, eles escreveram mesmo "Lancia Toyota Celica"

Página 349: "...o sistema de alimentação de combustível podia ter menos botijas vazias..." - botijas?

Página 388: (relativamente o Ferrari FF) "...usa uma pequena caixa de 2 velocidades e duas embraiagens montadas na parte frontal do motor, directamente accionadas pela manivela" - creio que no texto original seria crankshaft. Creio o último automóvel que podia ser accionado por uma manivela foi o Citroen 2CV...

Curiosamente o livro já trazia uma errata com referencia à troca de "200 mil" por "20 mil" e "escultor" por "escritor". Infelizmente faltava "se gosta de automóveis acabou de deitar fora 16 euros".

Não temos grande cultura automóvel em Portugal e quase nada se escreve sobre o automóvel em Português - este livro, como tanta coisa neste pais, foi mais uma chance desperdiçada. Triste...

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