DieselGate - ponto de situação 26-08-2016

Que nem uma telenovela portuguesa o dieselgate continua deprimente e sem fim, se bem que mais interessante. E sempre sem tretas, conservantes ou adoçantes acrescentados aqui no 4Rodas1Volante.

Mais VW's a caminho da oficina
Segundo a Reuters a KBA alemã deu a luz verde para a reparação de mais 140.000 automóveis com o 2 litros TDI - infelizmente não consegui encontrar em lado nenhum nem no site da KBA exatamente que modelos do grupo são incluídos nesta ultima leva. Irei atualizar assim que descobrir.


"Não-história do dia
O "rumor" que a Bosch não só sabia como ajudou a Volkswagen a criar e encobrir o software que permitiu o falseamento das emissões voltou em força - sem grande surpresa este rumor regressa depois do acordo entre a Volkswagen e o governo americano, ou seja, os advogados já fecharam esse acordo agora partem atrás do próximo alvo e sejamos sinceros o maior fornecedor do sector automóvel é um alvo muito apetitoso.

A Bosch fabrica vários componentes, incluindo a ECU do motor e o software base de gestão dos motores afetados pelo dieselgate - este software serve de base para o especifico da Volkswagen não sendo legal usa-lo diretamente em automóveis de estrada. Mas a Bosch não fabrica ECU's ou injetores ou software específico para um construtor especifico, fabrica o mesmo componente para inúmeros construtores e cada um deles tem a responsabilidade de configurar os componentes corretamente.

Segundo os registos em 2007 a Bosch avisou a VW que seria ilegal haver automóveis na estrada com o seu software, mas não tem a obrigação de controlar o que é que a VW (ou outro construtor) andava a fazer - seria como responsabilizar um construtor automóvel por um dos seus produtos ter estado envolvido num atropelamento ao invés de responsabilizar o condutor.


Volkswagen às turras com fornecedor
Como devem saber o grupo Volkswagen teve na semana passada um grande desentendimento com 2 fornecedores, que levou mesmo à paragem de produção em 6 fabricas. Este conflito já foi resolvido no inicio desta semana e o trabalho já regressou ao normal, mas creio que seria útil fazer um resumo cronológico dos eventos.

Tudo isto começou 2 fornecedores de componentes para a VW, a Car Trim que fabrica assentos e a ES Automobilguss que fabrica componentes para as caixas de velocidades (ambas empresas pertencentes ao Prevent Group) suspenderam a entrega de componentes às fabricas do grupo VW. A Prevent exigia uma compensação de 58 milhões de euros para cobrir os custos de preparar de preparação para uma encomenda de 500 milhões de euros prevista para 2017 mas que a VW cancelou sem dar qualquer explicação ou compensação.

Este braço de ferro durou o suficiente para que houvesse paragem de produção em 6 fabricas na Alemanha - os Golf e Passat deixaram de ser fabricados afetando 27.700 trabalhados ou 10% da mão de obra alemã da VW. Algo que podia custar até 70 milhões de euros por semana - algo não ideal para o objetivo de poupar 1 biliões de euros por ano, e sim, pagar o dieselgate.

Decidida a não vacilar a Volkswagen recorreu aos tribunais e conseguiu ordem para forçar os fornecedores a entregarem os componentes necessários, algo que a Prevent apresentou recurso que seria ouvido até dia 31 de Agosto. Ficar até lá com as fábricas paradas seria impensável e a VW chegou a pedir ao tribunal autorização para entrar nas fábricas da Prevent e levar os componentes que precisava - o tribunal ficou de se pronunciar neste pedido até ao final desta semana.

Não é só a Volkswagen a ter problemas com o Prevent Group - a Daimler, proprietária da Mercedes, também está em tribunal com o fornecedor de componentes a exigir uma compensação de 40 milhões de euros pelo cancelamento de um contrato de fornecimento de assentos em 2013. A Mercedes diz que não há problemas de fornecimento de componentes e continua a trabalhar com a Prevent, já que tem redundância de fornecedores não serviria de grande coisa à Prevent puxar o tapete como fez à VW.

Mas como disse no início todo este imbróglio esta agora resolvido - ao fim de 6 dias às cabeçadas o grupo VW aceitou compensar à Prevent e terminar o bloqueio. Segundo fontes internas a Volkswagen aceitou pagar 13 milhões de euros (bastante menos que os 58 milhões exigidos inicialmente pela Prevent) e vai comprar componentes à Prevent por mais 6 anos, se cumprir os critérios de qualidade exigidos. Claro que ainda falta incluir os custos de ter a produção parada por 6 dias e da má publicidade que toda esta confusão gerou.
Esta informação é de fontes internas, ambas Prevent e VW decidiram não tornar públicos quaisquer detalhes do acordo conseguido.

Contudo não é apenas na Alemanha que a VW tem problemas com fornecedores - no Brasil a marca alemã também está em tribunal com fornecedores locais.

Acima de tudo este frente-a-frente trás ao de cima alguns pormenores interessantes. Primeiro é quase cómico e decididamente amador a forma como a VW se tenha deixado apanhar nesta situação, parece que ninguém aprendeu nada com a Takata - os construtores trabalham em "just in time" ou seja os componentes que precisam chegam diretamente na fabrica no dia em que são precisos sem qualquer armazenamento, algo que funciona muito bem mas pelos vistos só têm um fornecedor por componente que com a construção modular é usado em inúmeros modelos...e quando há problemas com esse fornecedor não há um fornecedor secundário que possa ajudar.
Segundo demonstrou como o grupo VW está a tentar pagar (em parte) as contas do dieselgate - apertar com os fornecedores. Tendo em conta a dimensão do grupo VW se este conseguir reduzir em 1% as despesas com fornecedores pode significar uma poupança de 1.5 biliões de euros (segundo Ferdinand Dudenhoeffer da universidade de Duisburg-Essen). Mas com margens cada vez mais apertadas e com os fornecedores a consolidarem-se de repente os fornecedores deixaram de ser peixe miúdo - como a Prevent ilustrou tão bem: a encomenda cancelada era apenas para uma das unidades da Prevent mas ao suspender as entregas das 2 unidades conseguiu encostar a VW à parede. 

A VW também não consegue apertar do lado dos trabalhadores porque em conjunto os representantes dos trabalhadores e o estado da Baixa Saxónia detêm maioria na supervisão do grupo.

Literalmente apertada entre a espada e a parede.

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