Mary Barra no caminho certo?

Dou o braço a torcer quando estou enganado e tenho que admitir que posso estar enganado a cerca da CEO da GM Mary Barra: não a via capaz de mudar a atitude da GM e que iria apenas navegar a tempestade, pagar indemnizações e continuava tudo na mesma - mas depois de ouvi-la a cortar na GM após a apresentação do relatório da auditoria interna à GM ela fez algo que nenhum CEO da GM foi alguma vez fez - disse a verdade.

O relatório completo está disponível on-line e são 325 páginas (poucas se pensarmos que resumo 41 milhões de páginas e 230 entrevistas) da face oculta da GM, em que se confirma quase tudo o que se temia sobre a negligência e funcionamento interno disfuncional da marca americana. Barra resumiu o relatório como "uma saga de falhanços/erros em que ninguém assumia responsabilidades ou agia".

O relatório que a GM publicou não é nada meigo - conclui que é impossível determinar quem na verdade tomou muitas das decisões, ninguém assumia o que quer que fosse. Detalha 2 praticas comuns dos gestores e executivos da GM - o que chamam de “GM Salute" (saudação GM) em que basicamente consistia em cruzarem os braços e apontarem para a porta da sala de reunião sinalizando que a responsabilidade era de outro departamento, e o “GM Nod” (gesto de concordar com a cabeça) que era feito quando todos na reunião concordavam com o plano de acção a executar mas que saiam da reunião sem qualquer intenção de o executar.

Aponta o dedo claramente aos engenheiros, especialmente a Ray DeGiorgio que aprovou a produção da ignição defeituosa sabendo perfeitamente que não estava segundo as especificações internas da GM. E depois em 2006 autorizou a alteração do elemento defeituoso mas não alterou o número de identificação da peça o que dificultou detectar todo este problema.
E os restantes engenheiros que não perceberam que se a ignição desligasse os airbags não seriam activados - sim, quando estacionado até é capaz de fazer sentido, mas num carro capaz de desligar a ignição em andamento não. Ao invés de ter sido considerado um problema de segurança, foi considerado uma questão de conveniencia ao cliente.

E a burocracia capaz de envergonhar o estado português - ao longo dos anos houveram várias investigações ao longo dos 10 anos em que este problema foi estudado e ninguém o arranjou ou fez a ligação à falha dos airbags. Todo este pessoal que tinha a responsabilidade de resolver o problema e não fizeram nada. E queria sublinhar novamente este ponto da irresponsabilidade porque ao ler o relatório custa acreditar que estamos a falar do segundo maior construtor automóvel do mundo. Por exemplo, pelas entrevistas soube-se que muitos empregados não tiravam qualquer anotações ou emails trocados sobre reuniões porque "acreditavam" que os advogados da GM não queriam qualquer registo. E tal era a ocultação que o investigador que dirigiu este relatório foi incapaz de encontrar actas das reuniões ou registos de presenças.

A cereja em cima do bolo é, como já tinha escrito antes, que não foi a GM a encontrar o problema mas sim investigadores externos que estavam a estudar um acidente de 2006 e que concluíram que a chave de ignição estava na posição de "Acessório" instantes antes do embate e que isso desactivou os airbags. Eles avisaram a GM e publicaram as suas conclusões mas só em 2013 é que a GM deu por isso. E depois durante 10 meses houveram 3 responsáveis diferentes para a reverem o caso do Cobalt e quase todos os indícios ou avisos foram ignorados ou considerados não importantes. Nem sequer se deram ao trabalho de avisar o departamento legal do que estava a acontecer.

Sinceramente, e perdoem-me o vernáculo, mas Marry Barra acabadinha de chegar e já mostrou ter mais tomates que todos os CEO's da GM anteriores - recentemente escrevi que cabeças tinham que rolar e assim foi: 15 funcionários (maioria executivos dos departamentos de engenharia, segurança, legal e contacto público) já foram despedidos e ainda podem ser processados criminalmente pelo governo americano. Outros 5 foram disciplinados mas o relatório conclui que Barra e seus assessores directos de nada sabiam. Mary Barra mostrou que não está para brincadeiras e é para ser levada a sério - directa, assumiu publicamente a existência dos problemas e despediu o pessoal envolvido.

Falando na falta de tomates por parte dos anteriores CEO's da GM, houve um que manifestou também alguma falta de bom senso antes de abrir a boca. Falo de Dan Akerson que numa entrevista no site da Forbes assegurou que Mary Barra não sabia deste problema até ser nomeada CEO, mas foi talvez a expressão que usou "I bet my life on it”/Aposto a minha vida nisso. Tendo em conta que morreram várias pessoas em automóveis produzidos pela empresa que ele dirigiu e fez questão de ignorar durante todo este tempo provavelmente teria sido melhor escolher outras palavras - como por exemplo "eu conduziria um Cobalt de 2006 por ela".

Para quem esteja a contar o número de veículos da GM recolhidos em todo o mundo em 2014 já vai em 15,6 milhões de automóveis!

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